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#Crônicas#Literatura Brasileira

Vida Urbana

Por Lima Barreto (1921)

Os jornais noticiaram, com o luxo habitual de gravuras, que o prefeito havia sancionado a resolução do Conselho Municipal, autorizando-o a despender a quantia de quinhentos contos para a erecção do Teatro Brasileiro.

Ainda na semana passada, dois ilustres vereadores falaram com eloquência e saber sobre a necessidade de fazer surgir o teatro nacional.

É essa, aliás, uma velha preocupação da edilidade. Desde muito que a vejo empenhada em semelhante campanha. Quando o senhor Júlio do Carmo foi intendente, lembrou-se, com muita razão, da construção, por parte da municipalidade, de um teatro digno da cidade. O que se chamava teatro até aí, no Rio de Janeiro, eram infames casarões e capoeiras, inclusive o Lírico e o São Pedro, perfeitamente indignos do lugarejo mais atrasado do nosso interior. O senhor Júlio do Carmo tinha razão em querer dotar o Rio com uma decente casa de espetáculos. Artur Azevedo meteu-se no meio e começou a fazer propaganda da criação de uma espécie de Comédia Francesa, com atores e atrizes vencendo altos ordenados, pagos pelos cofres municipais.

Logo, todos os cabots258, mais ou menos talentosos, se alvoroçaram e começaram a acariciar a esperança de gozar uns vencimentos equivalentes a subsídios de deputados, e a dignidade de funcionários municipais, para o que, a todo o transe, exibiam as suas misérias atrozes. Veio o Passos e tratou de construir o teatro. A justificativa de tal construção era a educação artística do povo; Passos, porém, com quem menos se incomodava, era com o povo.

Homem de negócios, filho de fazendeiro, educado no tempo da escravatura, ele nunca se interessou por semelhante entidade. O que ele queria, era um edifício suntuoso, onde os magnatas da política, do comércio, da lavoura e da indústria, pudessem ouvir óperas, sem o flagelo das pulgas do antigo Pedro II. Era só isto.

Enérgico, pouco hesitante, passou do pensamento à resolução num ápice; e ei-lo pondo mãos à obra em segundos.

Tinha um filho que se fizera engenheiro de pontes e calçadas em Dresde e entendia tanto de alta arquitetura como eu de sânscrito; mas não fazia mal. Havia de ser ele mesmo o autor do projeto premiado e o construtor, para enriquecer nas comissões de fornecimentos.

Está aí como nasceu aquele estafermo do começo da avenida, cujas colunas douradas dão-lhe grandes semelhanças com os coches fúnebres de primeira classe.

Para o povo não tem serventia alguma, pois é luxuoso demais; para a arte dramática nacional, de nada serve, pois é vasto em demasia e os amadores dela são poucos; mas custou cerca de doze mil contos, fora o preço dos remendos. Enriqueceu muita gente... Tem servido para que uma burguesia rica, ou que se finge rica, exiba suas mulheres e filhas, suas jóias e seus vestidos, em espetáculos de companhias estrangeiras, líricas ou não, para o que o pobre mulato pé no chão, que colhe bananas em Guaratiba, contribui sob a forma de subvenção municipal às referidas companhias. Povo? Níqueis...

No porão , sob o olhar de cornudos touros de faiança, todas as noites as cocottes chics e os rapazes ricos se embriagam, perfeitamente à parisiense. Para isto, não era preciso gastar tanto dinheiro e amolar o povo com a sua educação.

Resta ainda a Escola Dramática. Mas é instituição tão inócua, tão assexuada, que não é preciso falar dela.

Está aí em que deu a intromissão da nossa municipalidade em coisas de teatro: criou mais uma casa de espetáculos, e, nos seus baixos, pôs um botequim luxuoso.

Agora vêm esses quinhentos contos; não mais para criar o teatro municipal, mas o brasileiro, o nacional: vamos ver em que dará. Em droga, por certo. A municipalidade do Rio de Janeiro, tão munificente em matéria de teatro, nunca se lembrou de estimular, por este ou aquele meio, a produção literária ou artística dos naturais da cidade.

Nunca lhes deu o mínimo alento e estímulo, nem mesmo recompensou o esforço deles.

Ela viu passar toda a bela vida de labor de um Machado de Assis, carioca da gema, sem um prêmio, sem um abraço, sem uma palavra de aplauso e de orgulho por ser ele daqui, desta linda Rio de Janeiro. Vive preocupada com coisas inviáveis de nacionalizar o teatro; mas sempre esqueceu sistematicamente os artistas e autores nascidos na cidade que ela representa. Repito: nunca lhes deu a mínima subvenção; nunca lhes deu o mínimo prêmio. Todas as municipalidades de todo o mundo galardoam os seus naturais que se distinguem neste ou naquele ramo de arte ou ciência; a municipalidade do Rio de Janeiro não se importa com eles. A sua preocupação é teatral...

Mesmo para os mortos, a sua atenção não é maior. Não houve poeta, cronista mais carioca do que Bilac. Que fez o Conselho para lhe erguer um monumento no Passeio Público, como era seu desejo tácito? Nada.

Que fez por Manuel de Almeida , esse do Sargento de Milícias, livro tão carioca? Que fez pelo genial José Maurício? Pelo Lagartixa?264 Nada! Nada! Três vezes nada!

(continua...)

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