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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

— Por que não dá de vez em quando um passeio como o de ontem? Eles lhe são de grande utilidade!...

— Talvez não seja tanto assim...

— Voltou muito fatigada?

— Muito menos do que supunha. Quando cheguei à gruta, sim, estava tão prostrada, que me parecia impossível voltar a casa.

— Veio depois a reação?

— É verdade, e fiquei então muito bem disposta.

— Foi em companhia de muita gente?

— A princípio, respondeu Olímpia, impacientando-se com as perguntas insistentes do médico; depois ficamos três, apenas.

E, como se quisesse fugir daquela conversa, saltou logo para outros assuntos muito diversos, e afinal pediu licença e afastou-se quase com arremesso. O médico a viu ir, pensativo.

— É esquisito! disse ele consigo, e passou a prestar atenção ao Papá Falconnet, que ao seu lado lhe fazia rasgados cumprimentos em francês. O hoteleiro precisava que o doutor fizesse uma visita a um de seus locatários que amanhecera doente.

Tratava-se de Gregório. O médico foi conduzido ao quarto deste. Entrou quase às apalpadelas, porque vinha da grande claridade de fora. Só ao fim de algum tempo começou a distinguir o que tinha defronte dos olhos. Papá Falconnet o acompanhava, sempre a desfazer-se em cortesias e palavras agradáveis.

— Abra um pouco aquela janela, recomendou-lhe o médico.

Falconnet correu a cumprir a ordem.

Gregório estava assentado na cama, com os travesseiros entalados nas costas. Tinha o ar muito abatido e preocupado.

— Quem é? perguntou ele, ao sentir os passos do médico.

— É o doutor, respondeu Falconnet, entrando. Veio ver D. Olímpia e aproveitou a ocasião para fazer-lhe uma visita.

— Que tem ela? interrogou o rapaz.

— Está, como sempre, sofrendo dos nervos, explicou o Dr. Roberto.

— Mas não tem alguma novidade?

— Não, disse o médico sacudindo os ombros.

E, assentando-se à cabeceira do doente, indagou do que este sofria.

— Indisposição de corpo, respondeu Gregório. Nem valia a pena o incômodo de vir cá. Afinal não estou doente...

O Falconnet havia se aproximado e explicava que aquilo devia ser da soalheira apanhada na véspera.

— Ah! o Sr. foi ao tal passeio da gruta? perguntou-lhe o médico. — É verdade, respondeu o enfermo.

O Falconnet principiou então a narrar o que a respeito do passeio ouvira na véspera contado por Olímpia.

— A ela entretanto fez bem!... considerou o Dr. Roberto, tomando o pulso de Gregório. E depois de examiná-lo, receitou e prometeu voltar.

Olímpia retirou-se com o pai nesse dia, como estava combinado. Não se despediu de Gregório, mas o comendador foi à procura dele para agradecer o incômodo que tomara o rapaz na véspera com a filha.

Gregório ficou surpreendido com a notícia da partida de Olímpia. Não podia acreditar! Pois ela ia assim, sem mais nem menos, sem lhe dar uma palavra, como se nada tivesse havido entre eles dois?...

Entretanto o comendador lhe oferecera a casa, e Gregório pensava com prazer em aproveitar esse obséquio. No dia seguinte, sem ter aliás experimentado melhoras, levantou-se da cama, vestiu-se e saiu. Na ocasião em que ganhava a rua deu com o Dr. Roberto, que o ia visitar.

— Pois o senhor já de pé? perguntou-lhe este com um gesto de censura.

— Estou perfeitamente bom, respondeu o outro.

— Não me parece. Ainda ontem tinha febre...

— Não era coisa de monta... O passeio há de fazer-me bem. Vou visitar o comendador.

— Ah! nesse caso vamos juntos; eu tencionava também ir para lá quando daqui saísse.

E os dois começaram a descer a rua do Rio Comprido. O Dr. Roberto ia preocupado: a singular moléstia de Gregório e aquela pressa do rapaz em visitar, ainda doente, o comendador; as melhoras efêmeras de Olímpia, a circunstância de haver Gregório tomado parte no passeio à gruta; tudo isso dava tratos à imaginação do médico.

— Ah, rapazes, rapazes, dizia ele consigo. E oh, mulheres! mulheres!

Em casa do comendador foram surpreendidos por uma novidade: Olímpia não queria ficar em Botafogo e exigia agora que o pai a levasse para a Tijuca.

Estavam tratando da nova mudança quando os dois entraram. Olímpia recebeu Gregório com muita frieza, mal lhe deu as pontas dos dedos e não lhe dirigiu palavra durante o tempo em que estiveram juntos. Parecia que nunca houvera absolutamente nada entre eles. Gregório ficou enfiado; no seu raciocínio aquele procedimento significava nada menos que cinismo. Olímpia aparecia-lhe agora ao espírito como uma mulher vulgar, friamente dissimulada e capaz de todas as hipocrisias. Mas se ela o tratava desse modo, o comendador, pelo contrário, procurava cercá-lo de obséquios e cortesias.

— Apareça-nos sempre, dizia o bom velho. O senhor dá-nos muito prazer com a sua visita.

(continua...)

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