Por Aluísio Azevedo (1884)
A mulher leu a conta de princípio a fim, sem um gesto, nem uma palavra; depois, ainda em silêncio, dobrou-a de novo e meteu-a no seio.
No dia seguinte pela manhã o copeiro, apresentava-se-lhe no quarto, exigindo, em nome do patrão, a resposta do pedido que este na véspera fizera ao Sr. Pereira.
Lúcia, molestada com semelhante pressa, respondeu de mau humor que — mais tarde daria uma resposta... O marido ia sair para buscar dinheiro!
O criado retirou-se, e ela foi logo, muito zangada, despertar o Pereira com um violento empuxão.
— Você é uma lesma! Exclamou. — Põe-se a dormir desse modo, e cá fico eu para me haver com as contas!
—Que contas?... perguntou o homem, esfregando os olhos pachorrentamente e escancarando a boca.
— Que contas! Você sempre é um traste muito inútil!
— Deixa disso, nhanhã...
— Que contas! A conta da casa! A conta do que você e eu comemos!
— Havemos de ver isso...
— Havemos de ver, não! que é preciso resolver qualquer coisa! O homem quer dinheiro; não me larga a porta!
E, puxando-o por um braço: — Ande! Mexa-se!
Pereira não fez caso e tornou aninhar-se na cama, encolhendo as pernas e os braços.
— Você não ouve?! Berrou a mulher, desfechando-lhe um murro nas costas. — Ë preciso que lhe dê com os pés para o acordar, seu burro?!
— Não me amole! Tartamudeou ele, sem voltar o rosto. Lúcia, que já se não podia conter, saltou-lhe ao gasganete e encheu-lhe a cara de bofetões.
— Pereira ergueu-se num pulo, e, muito estremunhado, olhou sério para a mulher:
— Ora , vamos lá!... disse, e começou a espreguiçar-se, retesando os braços.
— Diabo do sem préstimo! Resmungou a outra com desprezo, enviesando a boca e cuspindo o olhar por cima do ombro. — Não têm um vislumbre de brio naquela cara!
— Já trouxeram o café?... perguntou o sem préstimo, cuidando de lavar o rosto e os dentes.
Lúcia respondeu-lhe com uma injúria e saiu do quarto arremessando a porta; mas reveio logo e gritou em tom de ordem:
— Vista-se já e ponha-se em caminho, que é preciso arranjar dinheiro!
Pereira vestiu-se demoradamente, sempre abrir a boca, depois seguiu para o primeiro andar no seu passo miúdo, os braços a jogarem-lhe num movimento pendular, como se os tivesse seguros à omoplata apenas por um atilho. Tomou o seu café com leite e o seu pão com manteiga e foi espaçar para a chácara, à espera do almoço.
A mulher segui-o e, logo que o alcançou, bateu-lhe no ombro:
— Então você não se avia, criatura?! Você não vê que o homem quer dinheiro e que estamos ameaçados de ir para o olho da rua, seu Pereira?!
— Mas, que hei de eu fazer, nhanhã?...
— Ponha-se em movimento! Vá aos seus parentes, vá aos seus amigos, vá ao inferno! Contanto que arranje alguma coisa para tapar a boca daquele judeu!
Não me volte de mãos abanando, porque não lhe abro a porta do quarto, percebe?!
Você bem sabe que, se bem o digo, melhor o faço!
E, vendo que Pereira não se mexia:
— Então!
— Mas eu hei de sair sem almoçar, nhanhã?...
— Pois vá lá! Almoce. Mas é engolir e pôr-se a andar!
— E dinheiro para o bonde?
— Que? Você já gastou os cinco mil-réis que lhe dei anteontem?!
Pereira explicou que os havia gasto contra a vontade, porque uns sujeitos o obrigaram a pagar cerveja e doces numa confeitaria.
— Você é um palerma! Disse a mulher. — Tome lá mil e quinhentos. Mas veja agora se também os vais comer de doce!
* * *
Desde a véspera, entretanto, que Amelinha não se despregava do lado de Amâncio, senão quando este dormia ou quando precisava ficar só; levou a costura para o segundo andar, e pôs-se a coser no corredor, assentada à porta do quarto do seu doente.
Uma esposa não se mostraria mais afetuosa; ao menor gemido do enfermo, corria logo para ele, sempre meiga, sempre desvelada. Procurava ajudá-lo a suportar a monotonia da moléstia; procurava animá-lo, distraí-lo, fazendo por Ter graça, recorrendo, para o entreter, ao que sabia de mais espírito. Seu pézinho, leve e calçado de duraque, parecia não tocar no chão; seu rostinho, mimoso e fresco como um jambo, não se contraía ao fartum insalubre das variolóides.
E dir-se-ia que tudo aquilo não visava ouro interesse que não fora a mesma caridade e a mesma dedicação. Nem uma queixa, nem um suspiro, nem um olhar, nem um gesto, que traíssem a esperança de recompensas futuras, era o bem pelo bem.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.