Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

- Sinhá é muito esperdiçada! observou a mucama com a liberdade que as escravas prediletas costumam tomar. Não sabe poupar como o senhor que traz tudo fechado, até o sabonete! 

- Não tens que ver, nem tu nem as outras, com o que faz teu senhor! atalhou Aurélia com severidade. 

Bem ímpetos sentiu a moça de interrogar a mucama; mas resistiu a esse desejo veemente para conservar o decoro de sua posição e não abaixar-se até a familiaridade com a criadagem. 

Despediu a rapariga; mas resolveu verificar por si o que teria valido a Seixas essa reputação de avaro, que lhe conferira a opinião pública da cozinha e da cocheira. 

 

 

No dia seguinte, depois do almoço, lembrou-se Aurélia de sua resolução de véspera. 

Àquela hora o marido estava na repartição, e já o criado devia ter acabado de fazer o serviço dos quartos; por conseguinte podia sem despertar a atenção realizar seu intento. 

Deu volta à chave da porta que um mês antes fechara-se entre ela e seu marido; abriu de leve o reposteiro de seda azul para certificar-se de que ninguém havia no aposento; e trêmula, agitada por uma comoção que lhe parecia infantil, entrou naquela parte da casa, onde não tornara depois de seu casamento. 

Que horas encantadoras passara ela ali nos dias que precederam a cerimônia, quando ocupava-se com o preparo e adereço desses aposentos, destinados ao homem a quem ia unir-se para sempre, embora para dele separar-se por um divórcio moral, que talvez fosse eterno! 

O sentimento que possuia Aurélia e a dominava naquele tempo, ela própria não o poderia definir, tão singulares eram os afetos que se produziam em sua alma. 

Ao passo que ela acariciava com um acerbo requinte a desafronta de seu amor ludibriado desse homem, que a traficava, vinham momentos em que alheava-se completamente dessa preocupação da vingança, para entregar-se às fagueiras ilusões. 

Tinha sede de amor; e como não o encontrava na realidade, ia bebê-lo a longos haustos na taça de ouro, que lhe apresentava a fantasia. Essas horas vivia-as com seu ideal; e eram horas inebriantes e deliciosas. 

Nelas foi que a jovem mulher se esmerou em ornar suas salas e gabinetes. Sonhava que iam ser habitados pelo único homem a quem amara, e que lhe retribuía com igual paixão. Queria que esse ente querido achasse como que entranhada na elegência dos aposentos, sua alma palpitante, que o envolvesse e encerrasse dentro de si. 

Ao rever o lugar e objetos, que tinham sido companheiros daquelas cismas e ardentes emoções, Aurélia cedeu um instante à mágica influência de recordos, os quais se desdobravam como as névoas aljofradas, que empanam a luz do sol e mitigam-lhe a calma. 

Arrancando-se afinal a esse enlevo de um passado, que nem ao menos era real, e só existira como uma doce quimera, a moça percorreu então o aposento, e volveu um olhar perscrutador. 

Notou o que aliás era bem visível. O toucador estava completamente despido de todas as galantarias, de que ela o havia adornado com sua própria mão. Parecia um móvel chegado naquele instante da loja. Os guarda-roupas, cômodas secretárias, tudo fechado, e na mesma nudez, que denunciava falta de uso. 

- É por isso... murmurou a moça consigo. 

O criado não suspeita o motivo, e atribui à mesquinheza. 

Uma das mais tocantes puerilidades de Aurélia, quando sonhava o casamento com o homem amado, fora a igualdade das fechaduras de todas as portas e móveis do uso especial de cada um. Duas almas que se unem, pensava ela em sua terna abnegação, não tem segredos e devem possuir-se uma à outra completamente. 

Quando reuniu em argolas de ouro, as duas séries de chaves ao todo iguais, sorriu-se e imaginou que na noite do casamento, quando seu marido se lhe ajoelhasse aos pés, ela o ergueria em seus braços para dizer-lhe: 

- Aqui estão as chaves da minha alma e de minha vida: Eu te pertenço; fiz-te meu senhor; e só te peço a felicidade de ser tua sempre! 

Em que abismo de dor e vergonha se tinham submergido essas visões maviosas, já o sabemos. Ninguém suspeitou jamais nem ela revelou nunca, a voragem de desespero oculta sob aquele formoso colo, que parecia arfar unicamente com as brandas emoções do amor e do prazer. 

Aurélia abriu com suas chaves os móveis; e confirmou-se em uma conjectura. Tudo, jóias, perfumarias, utensílios de toucador, roupa, tudo ali estava guardado em folha, como viera da loja. 

- Que significado tem isto? Murmurou a moça interrogando atentamente seu espírito. Parece desinteresse... Mas não! Não pode ser. Em todo caso há um plano, uma idéia fixa. 

Outro dia o carro; agora isto!... 

Refletiu algum tempo mais, e concluiu: 

- Não compreendo. 

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...6364656667...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →