Por José de Alencar (1870)
Havia oito dias que tivera a Morena um lindo filho alazão. Uma tarde, quase ao escurecer, o puma assaltara a malhada do poldrinho, que recuando intrépido para fazer face ao inimigo, escorregara pela rocha e caíra na gruta. Acudira a mãe; perseguiu o animal carniceiro, e lhe fendeu o crânio com as patas. Quando fazia os maiores esforços para tirar o filho, foi ali cativa do chileno, atraído pelos rinchos angustiados. Na sua ausência conseguira o poldrinho galgar até à fenda e introduzir por ela o focinho. Foi então que a tordilha, condoída do órfão, se roçara com a lapa a fim de pôr-lhe as tetas ao alcance. Amamentou-o assim alguns dias; mas os torrões argilosos, onde pisava o animalzinho, cederam aprofundando-o pela caverna. Lá devia estar, pois, inanido, a soltar o último alento.
(continua...)
ALENCAR, José de. O gaúcho. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.