Por Camilo Castelo Branco (1882)
Ouvir a voz de José Dias que a chamava, no sonho e na vigília. E mostrava o texto: quando patiens audit quasdam voces se vocantes. Porque aborrecia a carne e o pão, e tinha grande fastio. O Osório lembrava-lhe que seriam enojos peculiares da gravidez; mas o varatojano confundia-o com o latim. Quando quis non potuit gustare panem aut cantem. Ela digeria com muita dificuldade os alimentos. Era obra do Diabo, porque o livro dizia – bem vê – mostrava Frei João ao padre Osório: Quando quis sanus cibum digerere non potest in stomacho. Chorava e não dizia por que chorava. Diabrura com toda a certeza: – Quando lacrymas plorat et nescit quid ploret. Havia um artigo que acentuava as mais fortes presunções da obsessão íncuba de Marta. Parece que ela no confessionário se acusava de repugnâncias, de concessões violentadas, de resistências às carícias do esposo: e talvez revelasse que a imagem de José Dias intervinha nessas lutas da alcova. É o que se depreende do Sinal décimo terceiro que Frei João mostrava com o dedo no seu Brognolo, e vai em latim, como lá está, para que poucas pessoas possam alegar inteligência: – Quando vir uxori et uxor viro apropinquare non potest, quia videt aliud corpus intermedium, aut sibi videtur esse.
– Aqui é onde bate o ponto! – dizia Frei João martelando com o dedo indicador na página indecente.
– Mas não será essa visão o intróito de uma alienação mental? – perguntava o de Caldelas. – Não vê, padre João, que esta rapariga está abatida por uma grande amargura que prende com actos da sua vida passada? Não a vê tão caída, tão melancólica...
– Os melancólicos são os mais vexados pelo Demónio – replicou o egresso. – Veja Galeno e Avicena, que aqui vêm citados. – E folheou o Brognolo, até encontrar o texto triunfal.
– Aqui tem; leia, verão que a demência pode ser obra do Demónio.
O padre Osório leu com uma grande ignorância curiosa: Os demónios acometem mais os melancólicos. Primeiro, por que o humor melancólico com dificuldade se tira e é de sua natureza inobediente e rebelde. Segundo, porque o humor melancólico é mais apto para gerar diversas enfermidades incuráveis, porque, se é muito enxuto, ofende as membranas do cérebro e faz ao homem doido; se ofende os ventrículos causa apoplexia, e gera raivas, frenesis e ódios; e estes efeitos de melancolia muitas vezes os costuma causar o Demónio, etc.
– O padre Osório está-se a rir?! – invectivou Frei João abespinhado – Sabe o senhor que mais? Eu já tinha ouvido dizer ao abade de Santiago de Antas que o Sr. Padre Vigário de Caldelas não era muito seguro em matéria de fé; que tinha um bocado de fedor herético nas suas prédicas, e que dava mais importância à quina do que aos santos milagrosos na cura das maleitas.
– Se isso fede a heresia, então, Sr. Frei João, estou de todo pobre – obtemperou Osório, e continuou deixando impar de espantada indignação o missionário. – A respeito da enfermidade de Marta, sou a dizer-lhe que em vez de exorcismos quereria eu que lhe ministrassem banhos de chuva, calmantes, distracções; e, baldados estes recursos, que a internassem num hospital de alienadas, porque esta mulher é filha de uma doida, é neta de outros doidos, e pouco há-de viver quem a não vir de todo mentecapta. Além de herege sou profeta, meu caro Sr. Frei João. A sua energúmena tem infelizmente o demónio que raras vezes a ciência vence – o demónio da demência hereditária que a não se curar com a agua em chuveiro, também se não cura com a água benta. Seria bom que Vossa Reverência, antes de pôr à prova os exorcismos, ouvisse a opinião dos médicos.
– Eu sei o que dizem os médicos – e sorria com menosprezo da pobre medicina. – Eu, aqui onde me vê, com os exorcismos, com este remédio que não inventei, mas que a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo me deixou, e que ele mesmo, o divino Mestre usou, como o Sr. Padre Osório deve ter lido nos seus Evangelhos... ou nega a autoridade dos Evangelhos? Nega que Jesus Cristo expulsava demónios? – Não senhor, eu sei a história da legião que se meteu nos porcos...
– E outras; os livros sagrados estão cheios desses factos a que o padre Osório chama histórias; não são histórias, são factos.
– Ah! Sr. Frei João! Jesus Cristo, a sua vida e os seus milagres não são história? não pertencem à história? Mau é isso então!
A polémica prolongou-se um tanto azeda; Osório escandalizava os pios ouvidos do egresso que, pondo as mãos no peito e os olhos no Céu, exclamava com S. Paulo que era necessário que houvesse escândalos. Interrompera-os o brasileiro, dizendo que a sua sobrinha estava com um ataque e que lhe dera no jardim. Frei João entrou na alcova para onde a tinham levado em braços, e o padre Osório ficou ouvindo a revelação da governanta, que lhe dizia:
– A desgraçadinha está de todo varrida! Eu estava no tanque a passar uns lenços por água quando ela entrou no pomar sem fazer caso de mim, como se ali não estivesse viva alma. E vai depois, pôs-se a cortar rosas e a dizer que eram para o seu amado José Alves, para o seu esposo José Alves. V. Sª não me dirá quem diacho, Deus me perdoe, é este José Alves?
– E depois?
– Depois, sentou-se debaixo da ramada, esteve a chorar com o ramo das rosas muito chegado à cara e daí a pouco caiu para o lado a dar aos braços e a espernear. Eu então chamei a cozinheira e levamo-la para o quarto com os sentidos perdidos! O José Alves, quanto a mim, acho que foi derriço que ela teve em solteira. Já ouvi dizer que a casaram com o arenque do tio contra vontade... S o que tem estes casamentos...
O padre Osório não elucidou a governanta. Assim que o Feliciano lhe disse que se iam ler os exorcismos, retirou-se, pretextando deveres paroquiais, e observou-lhe:
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. A brasileira de Prazins. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1778 . Acesso em: 17 jun. 2026.