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#Crônicas#Literatura Brasileira

Vida Urbana

Por Lima Barreto (1921)

Demorou-se lá mais de um mês e a sua falta foi bem sentida por mim e pelos botequins e vendas de dois ou três subúrbios, ao redor do de Todos os Santos, sem o esquecer este, certamente.

Voltou afinal e vim a encontrá-lo no armazém do senhor Carlos Ventura, na Rua Piauí, sentado num daqueles clássicos tamboretes das vendas do interior, de abrir e fechar lendo o Jornal do Comércio.

– Então, Parsons, que há de bom em Pirapora?

– Muita coisa.

– Uma delas?

– O peixe que é magnífico, saboroso e barato.

– E que mais?

– Uma mina de ferro.

Se bem que eu não saiba de cor a carta mineralógica do Brasil, não me constava, contudo, que aquela zona fosse das que pudessem tentar os desinteressados esforços civilizadores do “neoconquistador” Fahquart e seus asseclas do Wall Street. Por isso exclamei:

– Ferro, em Pirapora!

– Sim! Ferro e aço.

– Como?

– O governo de vocês não mandou buscar uma ponte para atravessar o São Francisco, lá em Pirapora?

– Mandou.

– Pois toda a ferragem, toneladas e toneladas, está lá amontoada, ao tempo, à espera de quem queira explorá-la como matéria-prima.

Está aí. Não é uma mina? Careta, Rio, 12-6-1920.

VANTAGEM DO FOOTBALL

Não tenho dúvida alguma em trazer para as colunas desta revista a convicção em que estou, de que o jogo de football é um divertimento sadio, inócuo e por demais vantajoso para a boa saúde dos jogadores respectivos.

O eminente senhor Coelho Neto, há tempos, defendendo-o de ataques de ignorantes e bárbaros, citou Spencer sem felicidade; mas tal coisa não quer dizer nada, porquanto basta a opinião do notável homem de letras, para convencer toda a gente que o esporte bretão, como se diz nas seções esportivas dos jornais, merece os favores excepcionais que os governos lhe dão e ainda vão dar.

Não querendo eu passar como retrógrado e atrasado e no intuito de também defendê-lo, tenho tido a paciência de colecionar nos quotidianos as notícias mais edificantes sobre as excelentes vantagens do divertimento de dar pontapés em uma bola.

Tenho de conflitos e também a crônica do Correio da Manhã que relegou o noticiário sobre tão excepcional esporte, para os fatos policiais.

Publicarei por partes esse arquivo precioso; hoje, entretanto, vou dar algumas amostras do que tenho colhido nos jornais, para encanto e satisfação das gentilíssimas “torcedoras”.

No Jornal do Comércio, de 1º de dezembro do ano passado, encontrei esta pequena novidade, sob o título – Football desastrado. Ei-la:

“O menino Antônio, de doze anos de idade, filho de Manuel Ferreira, morador à

Rua Saí nº 35, quando jogava football no terreno de uma escola pública do Largo de Madureira, fraturou a perna direita. Antônio foi medicado em uma farmácia, etc., etc.”

Meses antes, esse mesmo jornal, isto é, a 7 de julho, dava outra notícia que me vejo obrigado a transcrever aqui. Leiamo-la sob a epígrafe – A paixão do football:

“O menino Valdemar Capelli, de quinze anos, filho de Taseo Capelli, morador em Vila Aliança, nas Laranjeiras, passou a tarde de ontem a jogar football, num campo perto de casa.

“Interrompeu o divertimento às seis horas, para jantar às pressas e voltar ao mesmo exercício. Quando o reencetou, foi acometido de um ataque e a assistência pública foi chamada para socorrê-lo.

“Esta chegou tarde, entretanto, porque Valdemar estava morto. Etc., etc.”

Não é só aqui no Rio, que o maravilhoso jogo que vai nos fazer derrotar todos os nossos inimigos, inclusive a carestia da vida, manifesta a sua capacidade de dar saúde e robustez à nossa mocidade.

Nos Estados, ele também, em tal sentido, fala eloquentemente.

Em Niterói, conforme O Estado, de 8 de dezembro do ano que findou, deu-se este sintomático caso:

“Ontem à tarde quando em um campo na Rua do Reconhecimento, jogava uma partida de football, levou uma queda luxando o braço direito, o menor Francisco Olímpio, de vinte anos, residente à Travessa do Reconhecimento nº 31.

“Olímpio depois de socorrido, etc. etc;”

Em São Paulo, Ribeirão Preto, conforme telegrama estampado no Rio-Jornal, de 11 de julho do ano da graça de 1919, houve esta linda performance esportiva:

“Ribeirão Preto, 11, São Paulo (Rio Jornal) – O menor Miguel Grinaldi, jogando o football caiu fraturando o braço. Apesar dos recursos empregados pelos médicos o braço do menino gangrenou causando-lhe a morte. Grinaldi contava dez anos de idade.”

Não ficam aí as demonstrações inequívocas das vantagens de tão delicado jogo. Todas as segundas-feiras, quem tiver paciência, pode procurar muitas outras no noticiário dos jornais.

Depois de semelhantes provas, não se pode esperar do nosso governo senão fornecer aos futebolescos, os trezentos contos que precisam, para mostrar as suas belas gâmbias simiescas em Antuérpia. Careta, Rio, 19-6-1920.

O CONSELHO MUNICIPAL E A ARTE

(continua...)

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