Por Aluísio Azevedo (1882)
— Mas é que talvez venha a fazer-te mal!
— Isso mesmo me dizia o senhor antes do passeio à gruta.
— Não desejo contrariar-te, mas...
— Vai sempre me contrariando, não é verdade?
— É que lá são oito horas; tu deves naturalmente estar muito fatigada e...
— Ora, valha-me a paciência! Sinto-me, ao contrário, perfeitamente disposta.
E Olímpia, ameigando o pai, ordenou-lhe que se fosse vestir.
O comendador obedeceu, a dar de ombros. Papá Falconnet trouxe para a mesa os jornais do dia e discutiu-se qual seria o espetáculo preferível. Olímpia, sem se pronunciar por nenhum, recolheu-se ao quarto com a criada, enquanto ia chamarse um carro e às dez horas partia com o pai para a cidade.
Em caminho decidiram-se pelo teatro S. Luís, onde trabalhava essa noite o Furtado Coelho, mas, no momento de comprar os bilhetes, Olímpia tomara outra resolução: queria ir ao Chiarini.
E o carro voltou para a Guarda Velha.
Funcionava o segundo ato, quando ela entrou no circo pelo braço do pai. Havia uma grande enchente; o entusiasmo explodia por toda a parte e todos os lados gritavam:
— Scott! À cena o Scott!
Dois sujeitos de libré azul com alamares dourados conduziam para o interior do teatro um cavalo que acabava de servir. Muitos espectadores estavam de pé. Das galerias trovejava um barulho infernal: batiam com as bengalas, com os pés; gritavam, gesticulavam. E por entre aquela descarga contínua e atroadora, só um nome sobressaía, exclamado por mil vozes:
— Scott! Scott!
Olímpia sentiu-se aturdida no meio daquele pandemônio. De repente, um grito uníssono partiu da multidão; estalaram de novo as palmas, choveram os chapéus, agitaram-se os lenços, arremessaram-se os leques, os ramalhetes e as bengalas.
Scott havia reaparecido.
— Bravo! gritavam. Bravo!
E os aplausos estouraram com mais intensidade.
— Bravo, Scott! Bravo, Scott!
O acrobata, que entrara de carreira, parou em meio do circo, aprumou o corpo, sacudiu a cabeleira, e, voltando-se para todos os lados, atirava beijos e agradecia sorrindo, entre uma tempestade de aplausos.
Era um belo americano, rijo, atlético, ágil e robusto ao mesmo tempo. Olímpia, do lugar em que estava, via-lhe perfeitamente o azul dos olhos, a linha pura do perfil e a cintilação dos dentes.
Ele, depois de agradecer, estalou graciosamente os dedos e despediu-se, a dar cambalhotas no ar.
Rebentou de novo a tempestade das palmas, e as bocas dispararam uma sonora descarga de bravos.
Olímpia, entretanto, com a cabeça pendida para frente, olhar fito, a boca mal cerrada, caía na sua habitual tristeza e parecia a tudo indiferente.
Quando se retirava do teatro com o pai, um menino à saída apregoava a dez tostões, fotografias de Scott.
Ela comprou uma.
No dia seguinte, levantou-se muito tarde e de mau humor. Sua primeira frase, quando se encontrou com o pai, foi para lhe dizer que não ficava nem mais um dia na Avenida Estrela.
— Fizeram-te alguma coisa? perguntou o extremoso velho, esquecendo-se por um instante do prazer que lhe dava aquela resolução.
O comendador estava, como se costuma dizer, pelos cabelos, para deixar a casa do Papá Falconnet. Olímpia respondeu que não, com um gesto de cabeça, e acrescentou depois muito aborrecida:
— Estou farta de tudo isto! Preciso sair daqui quanto antes! — Como quiseres, minha filha!
E ficou resolvido que partiriam naquele mesmo dia. Às duas horas da tarde apareceu o Dr. Roberto; o comendador tomou-o de parte e relatou-lhe minuciosamente as caprichosas mudanças de humor que a filha experimentara desde a véspera.
O médico ficou pensativo depois de o ouvir.
— A que horas voltou ela do tal passeio? perguntou afinal.
— Às sete e meia da noite.
— Jantou logo que veio?...
— Logo, e com uma boa disposição que há muito tempo não tinha. Depois quis ir ao teatro, coisa de que ela não podia ouvir falar...
— A que teatro foram?
— Ao circo, ao Chiarini.
— Ah! resmungou o médico. Talvez ficasse nervosa à vista dos equilíbrios arriscados...
— Não sei... disse o pai; o fato é que ela estava ontem muito bem disposta e hoje, ao contrário, está impertinente como nunca!
E, depois de se conservarem ambos calados por algum tempo, o comendador acrescentou:
— Agora entendeu que não pode suportar mais esta casa e quer mudar-se hoje mesmo.
— E o comendador está resolvido a fazer a mudança?
— Pois não! já está tudo pronto. Partiremos daqui a pouco.
Olímpia apareceu já em trajos de sair. O Dr. Roberto foi pressurosamente ao seu encontro e perguntou-lhe pela saúde.
— Assim... respondeu ela sacudindo os ombros. Estou muito aborrecida.
— Tem tido dores de cabeça?...
— Um pouco, mas ontem passei muito melhor.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.