Por Aluísio Azevedo (1884)
— Ah! que bom! uma existência calma e despreocupada nessa querida ilha, onde ele nascera e passara os primeiros anos! Teriam a sua casinha, muito bem arranjada, sempre multo limpa, muito bem ventilada; teriam o seu pomar, o seu jardim, de que eles próprios se encarregariam para matar o tempo; teriam uma vaca de leite, algumas cabras, carneiros, porcos, um pequeno tanque, onde os marrecos e patos tomassem banho, muita criação de galinhas e pombos, pombos a perder de vista. A casa seria à beira-mar, teriam o seu botezinho para a pesca e para os passeios à tarde pela costa ou até a ilhota de Brocoió!...
— Que gosto em ter a gente à mesa as frutas que viu crescer no seu quintal!... dizia o Borges comovido. Que prazer em passar os dias a cuidar do que é seu, consertando, indireitando, plantando, regando, colhendo. Demais, ali não tens que fazer etiquetas; podes andar por toda a ilha com o teu vestidinho de chita, o teu chapéu de palha, o cabelo à vontade, que ninguém repara nisso!
E entusiasmando-se progressivamente com aquela expectativa de felicidade tranqüila:
— Isso que sentes agora nada vale... Hás de ver como ficas esperta logo que estivermos em nossa casinha de Paquetá!... E que passeios não havemos de fazer ao ar livre, pela praia, nas manhãs de sol ou nas noites de luar!... Havemos de ter pequenas reuniões de amigos; tu tocarás o teu piano, cantarás, enquanto eu estiver cuidando da chácara!...
— Oh! como havemos de ser felizes! como havemos de ser felizes!
exclamava o bom homem, já transportado mentalmente à sua terra, e sentindo-se em pleno gozo daquela doce existência que ele tanto ambicionava.
Filomena ouvia-o em silêncio, a olhar imóvel, a boca levemente arqueada pelo esforço que ela fazia para sorrir às palavras carinhosas do marido.
— Mas não fiques triste desse modo, que me matas... suplicava ele, com a voz trêmula e os olhos embaciados. — Espalha essas mágoas, que são a causa única de tua moléstia, minha querida Filomena! Se não quiseres vir para a roça, como aconselhou o médico, se Paquetá não te agrada, dize então o que te apetece, o que te serve... bem sabes que todo o meu empenho é só fazer-te a vontade, é só ver-te feliz e satisfeita, minha santa, minha querida mulherzinha!
— Não, meu amigo, não! Eu irei para onde quiseres; tenho obrigação de acompanhar-te... respondeu Filomena em voz baixa, fazendo esforços para conter as lágrimas.
CAPÍTULO XXIII
PAQUETÁ
Borges não descansou mais um instante, sem ter arranjado o necessário para abandonar a cidade.
Obteve uma casa em Paquetá; comprou tudo que lhe pareceu mais ao gosto da mulher, pois que esta se obstinava a guardar silêncio, e não se pronunciava por coisa alguma, como se tudo lhe fosse indiferente.
— Faze o que entenderes..— respondia ela, sem abrir os olhos. Quanto fizeres será bem feito. Tudo me agradará.
— Mas não fiques desse modo!... pedia o esposo afagando-a.
Ela sorria tristemente e não dava mais palavra.
Partiram na manhã seguinte para Paquetá.
Havia um belo sol. Toda a natureza palpitava às carícias da luz; um panorama radiante desenrolava-se em torno da poltrona, onde Filomena se sumia entre grandes almofadas.
Os horizontes iam fugindo e azulando; as águas da baía estendiam-se a perder de vista, refletindo nas suas lâminas de prata as pequenas ilhas verdejantes que surgiam de todos os lados. E a serra dos órgãos aparecia ao longe, apunhalando o céu com as suas pontas cor de aço, enquanto as nebulosas cordilheiras derramavam-se-lhe aos pés, formando grupos de nuvens paralisadas.
Filomena, entretanto, parecia indiferente a esses mesmos esplendores que dantes a arrebatavam.
Embalde o marido fazia por chamá-la às antigas impressões; embalde procurava despertar-lhe na alma o extinto entusiasmo: — Filomena, muito abatida, os olhos mortos, as mãos esquecidas sobre o regaço, queixava-se ficar no seu entorpecimento doentio.
Já não era a mesma Filomena de dois meses atrás. Seu sorriso agora era triste e cansado; sua cabecinha redonda e outrora esperta como a cabeça de uma rola, caía-lhe sobre o peito em uma prostração de luto e viuvez.
O resto da viagem correu fúnebre.
Ao chegarem à casa, Filomena não se mostrou interessada por coisa alguma; entrava ali como se entrasse para um hospital; a criada, que encontrou às suas ordens, pareceu-lhe uma irmã de caridade. Em vão o marido pedia a sua opinião sobre o que tinha preparado para recebê-la ou sobre a beleza natural do lugar, a esplêndida vista que se desfrutava deste ou daquele ponto.
Filomena sacudia os ombros, sem uma palavra; o Urso em vão lhe farejava os pés, à espera de uma carícia.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.