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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

— Não credites que Amelinha se deixe codilhar assim só!...observou a esperta locandeira.

— Ora qual! Volveu o outro zangado. — Ninguém me tira da cabeça que esta mudança do rapaz para o segundo andar, foi coisa arranjada por aquela sirigaita!

E, tendo percorrido três vezes o quarto, parou de repente, muito agitado:

— Mas comigo, bradou — Está enganada! Tenho a faca e o queijo na mão! Posso despachá-los, quando bem entender, a ela mais o bolas do tal marido! E nem preciso inventar pretextos para os pôr na rua, porque eles já devem aí perto de dois meses!

— Pois nós havemos de perder esse dinheiro?! Interrogou Mme. Brizard assustando-se.

— Sim, mas é que eu não os deixo ir, sem ficar garantido! E se quiserem fazer de espertos, confisco-lhes a mulatinha! Não! Aqui para o meu lado é que não se arranjam!

E, recaindo nos projetos a respeito de Amâncio:

— Uma ocasião tão boa para a Amelinha o cativar, se o diabo da intrusa não se metesse entre eles no melhor da coisa! Ah! peste!

Mme. Brizard, que se havia assentado, meditava de cabeça baixa.

— Eu até o acho agora mais reservado e mais frio! ... prosseguiu o hoteleiro estudante. — Já não me consulta quando quer dar algum passo ... já não se abre comigo!

E aproximando-se da mulher, exemplificou em voz de mistério:

— Sabes, aquele doce que ele recebeu do Maranhão? Foi quase todo para ela! A mim deu unicamente um frasco do tal bacuri (por sinal que não lhe acho graça); para si, creio que guardou uma latinha de geleia, e tudo mais lambeu a gata arrepiada!

— Que! Pois ele lhe fez presente de todo o doce que recebeu do Norte?...

— Ora! Se te estou a dizer!

— Não! exclamou a Brizard escandalizada.— Isso agora não lhe perdôo! A gente aqui a se matar, a desfazer-se em carinhos, e ele a socar no bandulho daquela bicha os mimos que recebe da família! Não! Isto não se faz!

— Pois fez! Sustentou Coqueiro. — E, se não abrirmos os olhos, ela é capaz de arrancar-lhe até a última camisa!

— Dar todo o doce àquela criatura!... repisava a francesa. — É quanto pose

ser!...

— Pois deu!

— Sempre o supunha outra espécie de gente!...

— Não é pelo doce, explanou o marido - mas sim pelo alcance do fato! Nós, o que devemos fazer e, quanto antes, tomar medida muito seria a respeito de tudo isto!

E, fitando a mulher com resolução:

— Vamos a saber! Achas que os devemos pôr no olho da rua?!

— Mas, filho, sem pagarem?! ...

— Ainda que não paguem, ora essa! Dos males o menor! Lembra-te de que o Amâncio não inventou a pólvora e pode, muito bem, ser visgado por aquela lambisgóia!... A cabra não tem nada de tola!... Que achas tu?!

— Sim, mas também par deixá-los ir com o nosso cobre...

— Fica-se com um documento selado e podemos perseguí-los a todo o tempo!

— Isso é asneiras!

— Asneiras é perdermos o futuro de Amelinha por causa de alguns mil-réis Mme. Brizard ainda hesitou.

— Então? insistiu Coqueiro. — A termos de tomar esta resolução, deve ser já e já, que a oportunidade é magnífica; talvez até nunca mais pilhemos um ensejo tão favorável! — Minha filha, nem sempre há cataporas!...

— A outra, afinal, consentiu, e ficou deliberado que o Pereira e Lúcia seriam postos na rua, se não saldassem imediatamente as suas contas.

— Estão ali, estão fora!... profetizou o locandeiro, esfregando as mãos.

* * *

Algumas horas depois, quando o Pereira descrevia tropegamente a sua órbita consuetudinária entre a mesa do jantar e a preguiçosa, Coqueiro, entrepondo-se-lhe no caminho, meteu-lhe na mão uma folha de papel dobrada sobre o comprido, e disse-lhe em tom seguro e repassado de urgências:

— É uma nova continha de suas despesas. O amigo desculpe, mas, se me pudesse pagar isto até amanhã, não seria nada mau, porque tenho de satisfazer os fornecedores.

— Havemos de ver... balbuciou o hóspede, correndo pelo papel os olhos meio fechados.

O credor advertiu-o em voz baixa de que havia já esperado muito e que o Se. Pereira, pelos modos, não se lembrara dele.

— Tem toda a razão... concordou o dorminhoco. — Juro-lhe, porém, que me não esqueci do senhor. Ainda não recebi dinheiro, sabe?

Sim , retorquiu o outro — mas o senhor também sabe que eu preciso fazer face aos gastos da casa e ...

— Tenha paciência ... bocejou o Pereira. — Tenha um pouco de paciência.

Hei de cuidar disso.

— Mas é que não posso esperar mais, Sr. Pereira!

— Não há novidade! Pode ficar descansado, que não há novidade, respondeu aquele espreguiçando-se, já importunado com o transtorno de não se poder estirar na cadeira. E entregou a conta a Lúcia, que se aproximava em ar de curiosidade. Feiro isto, deixou-se cair na preguiçosa, inalteravelmente, com nos outros dias. Daí a pouco ressonava.

(continua...)

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