Por Camilo Castelo Branco (1882)
– Distinguo! – insistiu o varatojano apoiado nas velhas fórmulas da dialéctica esmagadora. – Deus criou os anjos; destes houve alguns que se rebelaram contra o seu criador, e foram precipitados do Céu: são os espíritos infernais. Alguns desses anjos não desceram às trevas inferiores, e permanecem para flagelo do género humano no ar caliginoso. Aer caliginosus est quasi carcer doemonibus usque in diem judicii, diz S. Agostinho. Deus permite que os demónios vexem as criaturas, pelo bem que pode resultar às criaturas desse vexame. É o que se colhe do Evangelho de S. João: Omnia per ipsum facta sunt. Portanto, Deus permite o mal? logo: este mal é bom, porque Deus é o Sumo Bem. Verdade é que os males não são bens...
– Ia eu dizer... – atalhou o padre Osório; ao que o missionário acudiu prestes e vitoriosamente:
– Mas Deus tira os bens desses mesmos males, como diz S. Tomás: Bonum invenire potest sitie maio, sed malum non potest invenire sine bono Logo: Deus permite o mal como causa do bem; id est, permite o Demónio como exercitação saudável do género humano. Melius judicavit Deus de malis bona facere, quam mala nulla esse permittere, diz S. Agostinho; e S. Tomás ainda é mais claro e persuasivo: Divina sapientia permittit aliqua mala tieri per moios Angelos propter bona quite ex eis elicit. São doze as causas por que Deus permite que os demónios atormentem as criaturas humanas. Primeira: para que o homem obstinado na culpa seja neste mundo e no outro atormentado; segunda...
– Estou convencido, Sr. Frei João – atalhou o vigário – Vossa Reverência já esclareceu a minha dúvida. É o caso que Deus permite demónios flagelantes para depurar com eles os pecadores – uns e outros criaturas da sua divina justiça.
– É isso mesmo.
– O espírito do mau homem – do pecador que é em si um demónio interno, depura-se pela acção de outro demónio externo, ambos criaturas do seu divino amor... Percebi. Estou convencido... Deus é como um pai que azorraga o seu filho querido a ver se ele recebe as mortificações como carícias. Rico pai! – E acrescentou com amargura: – Ah! meu Frei João, receio muito que as superstições venham a desabar o catolicismo que deve a sua existência à vitória que alcançou sobre as mentiras da idolatria com as armas da verdade. Ego sum veritas.
Frei João ia fulminar segunda vez a argumentação do padre Osório, quando os outros missionários chegavam, para assistirem ao jantar de despedida em casa da brasileira.
Fechara-se a missão; os padres iam dali para Barcelos; mas Frei João, empenhado em desendemoninhar a pobre Marta, hospedou-se na quinta da Revolta, em cuja capela celebrava missa e confessava as suas filhas espirituais insaciáveis do pão dos anjos, que digeriam numa vadiagem dorminhoca, amesendadas nos adros das igrejas e nos soalheiros, catando as próprias pulgas e as vidas alheias.
Frei João andava apercebido com todos os utensílios infestos ao Diabo. Resolvido a dar-lhe batalha, armou a energúmena das mais provadas armas nos seus triunfos sobre o Inferno. Lançou-lhe ao pescoço um santo lenho, um breve da Marca, a verónica de S.. Bento, o Símbolo de Santo Atanásio, cruzinhas de Jerusalém, verónica com a cabeça de Santo Anastácio, relíquias de vários santos, umas esquírolas de ossos grudadas em farrapinhos, orações manuscritas da lavra do varatojano, metidas em saquinhos surrados da transpiração de outras obsessas.
Marta devia jejuar, como preparatório. Parece que o Demónio se compraz de habitar estômagos confortados na quentura do bolo alimentício. O exorcista jejuava também conforme o preceito dos praxistas, e aconselhava ao Feliciano que jejuasse, em harmonia com o texto de Jesus que dissera pela boca de S. Mateus que : Hoc genus demioniorum in nullo potest exire nisi oratione a jejuino. O Feliciano dizia que sim, que jejuava; mas, às escondidas do frade, comia bifes de presunto com ovos; começava a revelar ideias egoístas, um cuidado da sua alimentação e do seu repouso, certo desprezo cínico pela parte que o Diabo tomara na sua família.
Frei João de Borba da Montanha expendeu ao vigário de Caldelas os fortes sintomas que Marta apresentava de estar possessa. Eram muitos, e bastava-lhe citar os seguintes:
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. A brasileira de Prazins. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1778 . Acesso em: 17 jun. 2026.