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#Crônicas#Literatura Brasileira

Vida Urbana

Por Lima Barreto (1921)

Eu não tenho cem anos, mas a minha idade é longa; entretanto, até hoje, ao que me lembre, nunca ouvi alguém contestar a teoria do nosso velho sábio, sobre a guerra entre os homens. Veio, porém, esta última guerra; e, se a teoria não foi desmentida, foi anulada. Os homens se bateram furiosamente e furiosamente se mataram; mas, quando íamos aproveitar as carniças, lá apareciam uns “passarões” enormes, sem bico, sem penas, sem olhos, a despejar tiros e pelouros239 uns contra os outros. Fugíamos aos bandos e púnhamos a espreitar se iam cair na carniça dos abandonados nos campos de batalha. Mas nada. Uns voltavam para trás, outros caíam; e nós não nos animávamos a avançar. Demais, descobrimos que nos tais “passarões” havia homens também; e, agora, o problema, a questão mais transcendente que obumbra a sagacidade de nossos sábios

é saber: “Porque os homens fazem guerra, se não é para dar carniça aos corvos?” E o corvo não disse mais nada.

Careta, Rio, 1-5-1920.

CAVENDISH, NA GUANABARA

Causou grande estranheza, senão espanto, o fato do atual presidente da república, quando ultimamente, foi a Teresópolis, ter-se feito escoltar por um destróier, no trecho da viagem por mar.

Era um costume novo nas usanças dos nossos soberanos.

D. João VI, quando ia para a sua casa de campo da ilha do Governador, empregava unicamente uma das suas galeotas a remos, que ainda existem, e deixava em paz as naus, caravelas e bergantins de guerra, cochilando nos seus ancoradouros.

D. Pedro II, quando ia para Petrópolis, só amolava a galeota imperial que rodava as suas rodas laterais de paus, com uma preguiça escachoante.

As corvetas, fragatas, canhoneiras, etc., ficavam no poço, à espera de uma platônica embaixada à China que uma delas transportasse.

Depois que os soberanos republicanos deram para a pacholice de Petrópolis, nenhum deles moveu do poço ou do ancoradouro de São Bento um navio de guerra, para escolta-lo ate Mauá.

De modo que a inovação epitaciana causou surpresa em todos os círculos sociais.

Há dias, porém, o senhor doutor Raul Soares244, cuja competência em coisas de

Marinha só encontra equivalente na das do cerimonial devido a soberanos, pois gaba-se de saber a do Xá Jehan , de Agra; do imperador Teodósio , de Bizâncio; do de Luís XIV , de Versalhes; e do de Filipe II, de Espanha; o doutor Raul Soares, dizíamos, explicou o fato a um dos nossos companheiros:

– Vocês todos estão admirados de sua excelência o eminentíssimo senhor doutor Epitácio da Silva Pessoa, se ter feito escoltar por um destróier até à baía da Piedade. Não há que admirar. Diante da Constituição, ele tem esse direito; mas não foi por isso que assim determinei fosse feito. É que a nossa baía está cheia de piratas. Eles se acoitam em lugares onde os nossos navios de guerra não podem ir. À vista dos assaltos constantes a embarcações de comércio, já determinei que os nossos navios os perseguissem; mas calam muito e não podem alcançá-los nos lugares em que estão. Determinei que o São Paulo os castigasse com tiros indiretos; mas infelizmente, esse couraçado veio dos Estados Unidos com balas que não são para os seus canhões, e com pólvora que não é para as suas balas. Os nossos amigos americanos fizeram dele um monstro desdentado. Daí, não termos levado a efeito a perseguição aos piratas.

– E os outros navios?

– Não se prestam para o fim colimado.249 Mas... continuo. Tendo sua excelência, que viajar na Guanabara, infestada como está de piratas, julguei prudente para a sua segurança, comboiá-lo com um destróier. Eis ai.

– Vossa excelência conhece o nome de algum dos piratas?

– Pois não.

– Qual é?

– O chefe é um tal Cavendish que, desde há muitos anos, persegue e saqueia os nossos portos e cidades marítimas.

Estão, portanto, os leitores inteirados porque o senhor Epitácio levou até Paquetá, um destróier, na ilharga.

Careta, Rio, 5-6-1920.

MINA DE FERRO E AÇO

Um dos meus mais constantes companheiros de conversa neste burgo de Todos os Santos, onde moro, é o meu vizinho Edgard Parsons, engenheiro, nascido na Inglaterra, mas que tem, como um bom inglês que é, corrido várias partes do mundo.

Foi durante muito tempo empregado em uma grande oficina mecânica dos arredores da minha residência e com ele converso pelos botequins e vendas roceiras do lugarejo em que ele está.

Aproveito sempre a palestra com ele, para aprender coisas do seu ofício, não porque, como o meu amigo Diderot, tenha de organizar um dicionário ou enciclopédia em que figurem termos das artes mecânicas, mas pelo motivo muito simples de que sou curioso de todas as coisas.

Não tenciono senão isso, porque, no imitar Diderot, não haveria vantagem, pois os dicionaristas de profissão seguiram-lhe o exemplo e aperfeiçoaram a inovação do mestre – coisa de que não seria eu capaz.

Parsons conta-me coisas do Egito; mas graças a Deus, não me fala nas pirâmides, na esfinge, nem no Museu de Bulac. Fala-me de Omdurman250, de Gordon , do Mahdi , dos dervixes e outras coisas bem modernas da dominação inglesa, na terra dos faraós.

Há tempos foi a Pirapora, em serviço de sua oficina e da sua profissão.

(continua...)

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