Por Aluísio Azevedo (1882)
— Que sente, minha senhora?... interrogou ele, empolgando-lhe a cintura.
Olímpia não respondeu e deixou-se cair no colo do rapaz. Vieram logo os soluços e os suspiros estalados na garganta.
Gregório, na candura dos seus dezoito anos e na predisposição lírica do seu pobre espírito, não podia apreciar o alcance daquela crise: todos os fatos da vida real e todos os fenômenos humanos tinham para ele uma explicação romântica. Maleducado pela metafísica do colégio em que se desenvolveu, e dominado pela corrente sentimentalista da sua época, repugnava-lhe a verdade fria e tudo aos seus olhos se prestigiava de um sedutor caráter de idealismo poético.
Para ele, Olímpia, com os seus ásperos arrebatamentos e com as suas míseras ternuras de rola enferma, não podia deixar de ser um mito irresistível e adorável. Gregório a amava, mas não a compreendia; aspirava-lhe o doce perfume através do véu nebuloso que a envolvia, aceitando-a na sua cega adoração, como o crente religioso aceita um dogma.
Que estranhas comoções não se apoderaram dele enquanto sustinha no ombro a formosa cabeça de Olímpia; enquanto lhe via de perto a fresca brancura do pescoço, e lhe sorvia os perfumes do cabelo, e lhe bebia o salmodear do pranto?...
Ela parecia ir serenando à proporção que lhe fugiam as lágrimas e os soluços. Gregório, cheio de hesitação e receoso de afligi-la, mal ousava passar-lhe a mão à flor dos seus cabelos.
— Veja se consegue tranqüilizar-se um pouco... aconselhava ele com a voz trêmula, todo possuído de uma deliciosa agonia.
E, como se tivesse nos braços uma criança nervosa, batia-lhe carinhosamente nas costas e dizia-lhe todas as meiguices do seu amor ingênuo.
Olímpia, sem responder, continuava, não ainda a soluçar, mas a embalar-se num fluxo e refluxo de suspiros, que lhe faziam arfar o corpo inteiro, como a ressaca ao navio depois que a tempestade passou.
— Eu talvez a esteja constrangendo... arriscou Gregório, procurando delicadamente desviá-la dos seus braços.
— Não! respondeu ela, puxando-se para ele e chegando o rosto para os lábios do rapaz. Mas logo o repeliu, como se arredasse da sua carne palpitante um cadáver já frio.
Entretanto a tarde principiava a encher a natureza de sombras. As aves despediam-se do sol com os seus últimos gorjeios, e as árvores se retraíam no misterioso recolhimento do crepúsculo.
CAPÍTULO XIX
O ACROBATA
Só às sete e meia conseguiram alcançar a casa. Todos os esperavam com ansiedade. Augusto havia chegado muito antes, mas ao saber que os dois companheiros não tinham aparecido, e receoso de que estivessem perdidos no campo, voltou à procura deles e trouxe-os consigo. Olímpia, com grande espanto geral, longe de chegar aborrecida e contrariada, entrou em casa muito satisfeita, atirou-se rindo aos braços do pai, e ordenou gracejando ao hoteleiro que lhe servisse o jantar.
Vinha tão expansiva e folgazã que a todos causou verdadeira surpresa. O sol emprestara-lhe às faces um vivo cor-de-rosa, que lhe enfeitava o rosto com muita graça; os seus olhos jamais luziram com tanta vida, e ela toda nunca parecera tão bem disposta e tão sã.
O comendador, que havia passado o dia em sobressaltos com a demora da filha, era de todos o mais encantado por aquela metamorfose. Olímpia parecia-lhe agora como nos bons tempos, quando governara com o espírito toda a sociedade em que se achasse.
— O Dr. tinha razão! dizia o velho consigo; os exercícios são de evidente efeito! Hei de fazê-la, uma vez por outra, visitar a gruta! Se as melhoras continuarem deste modo, em breve tenho minha filha perfeitamente curada!
E o comendador chorava de alegria.
O jantar foi de uma animação sem exemplo na Avenida Estrela; os mesmos hóspedes que haviam comido já, voltaram à mesa atraídos pelas gargalhadas explodidas em torno da descrição que Olímpia fazia do seu passeio. Gregório, entretanto, não parecia o mesmo: estava abatido e concentrado. Por duas vezes seus olhos cruzaram-se no ar com os da caprichosa senhora, e ele por duas vezes os abaixara, dominado pelo mais estranho acanhamento.
— Pois eu pensei que chegasses aqui sem uma hora de vida! observou o pai, embebido a olhar para a filha, enquanto lhe servia a sobremesa.
— Nunca me senti tão bem disposta! respondeu ela, a estender o copo ao Falconnet para que lhe desse vinho. Sinto-me tão bem que estou resolvida a ir hoje a qualquer teatro!
— Que dizes?! exclamou o comendador, arredando a cadeira, com um salto.
— Que espanto! observou a rir a filha.
— Se te lembra cada loucura!
— Oh! Pois não é o senhor mesmo que me tem pedido todos os dias para ir aos teatros, aos bailes e aos passeios?...
— Sim, mas não depois de um dia como este!...
— Pois em outra qualquer ocasião não me lembraria semelhante coisa. Se recusei das outras vezes e aceito agora, é porque só agora tenho vontade de ir...
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.