Por José de Alencar (1875)
- Meu Deus! Exclamou o mancebo comprimindo o crânio entre as palmas das mãos. Que me quer esta mulher? Não me acha ainda bastante humilhado e abatido? Está se saciando de vingança. Oh! Ela tem o instinto da perversidade. Sabe que a ofensa grosseira, ou caleja a alma, se é infame, ou a indigna se ainda resta algum brio. Mas esse insulto cortês cheio de atenção e delicadezas, que são outros tantos escárneos; essa ostentação de generosidade com que a todo o momento se está cevando o mais soberano desprezo; flagelação cruel infligida no meio dos sorrisos e com distinção que o mundo inveja; como este, é que não há outro suplício para a alma que se não perdeu de todo. Porque não sou eu o que ela pensa, um mísero abandonado da honra, e dos nobres estímulos de homem de bem? Acharia então com quem lutar!
Seixas vergou a cabeça ao peso dessa reflexão.
- A força da resignação, essa porém hei de tê-la. Não me abandonará, por mais cruel que seja a provação.
Os dias seguintes, essa fase nascente da lua de mel, passaram como o primeiro. Entraram então os noivos na outra fase, em que o enlevo de se possuírem já permite, sobretudo ao homem, tornar às ocupações habituais.
No quinto dia Seixas apresentou-se na repartição, onde foi muito festejado por suas prosperidades. Tomaram os companheiros aquele pronto comparecimento por mera visita. Se quando pobre, sua freqüência somente se fazia sentir no livro do ponto, agora que estava rico ou quase milionário, com certeza deixaria o emprego ou quando muito o conservaria honorariamente, como certos enxertos das secretarias.
Grande foi pois a surpresa que produziu a assiduidade de Seixas na repartição. Entrava pontualmente às 9 horas da manhã e saía às 3 da tarde; todo esse tempo dedicava-o ao trabalho; apesar das contínuas tentações dos companheiros, não consumia como costumava outrora a maior parte dele na palestra e no fumatório.
- Olha, Seixas, que isto é meio de vida e não de morte! Dizia-lhe um camarada repetindo pela vigésima vez esta banalidade.
- Vivi muitos anos à custa do Estado, meu amigo; é justo que também ele viva um tanto à minha custa.
Outra mudança notava-se em Seixas. Era a gravidade que sem desvanecer a afabilidade de suas maneiras sempre distintas, imprimia-lhe mais nobreza e elevação. Ainda seus lábios se ornavam de um sorriso freqüente; mas esse trazia o reflexo da meditação e não era como dantes um sestro de galanteria.
O casamento é geralmente considerado como a iniciação do mancebo na realidade da vida. Ele prepara a família, a maior e mais séria de todas as responsabilidades. Atualmente esse ato solene tem perdido muito de sua importância; indivíduo há que se casa com a mesma consciência e serenidade, com que o viajante aposenta-se em uma hospedaria.
Por isso estranhavam os colegas de Seixas aqueles modos tão diversos dos que tinha antes, em solteiro; e não concebendo que o casamento mudasse repentinamente a natureza do homem, atribuíam a transformação à riqueza; e à modéstia chamara impostura.
Para chegar em tempo à repartição, tinha Seixas de almoçar mais cedo e só, o que poupava-lhe, e também a Aurélia, cerca de meia hora de suplício, que ambos se infligiam um ao outro com sua presença.
- Está muito assíduo agora à repartição? Disse um dia a moça ao marido. Pretende algum acesso?
Seixas deixou cair o remoque e respondeu francamente:
- É verdade, há uma vaga, e desejo obter a preferência.
- Que ordenado tem esse emprego?
- Quatro mil e oitocentos cruzeiros.
- Precisa disso?
- Preciso.
Aurélia soltou uma risada argentina, quanto má e venenosa.
- Pois então seja antes meu empregado; asseguro-lhe o acesso.
- Já sou seu marido, respondeu Seixas com uma calma heróica.
A moça continuou a gorjear o seu riso sarcástico; mas voltou as costas ao marido e afastou-se.
Seixas ia a pé tomar em caminho a gôndola, cujo ponto ficava distante da repartição.
Uma vez a mulher o interpelou acerca disso:
- Porque não serve-se do carro quando sai?
- Prefiro o exercício a pé. É mais higiênico; faz-me bem ao corpo e ao espírito.
- É pena que não tivesse feito seus estudos de higiene quando solteiro.
- Não imagina quanto o lamento. Mas sempre é tempo de aprender, e nestes poucos dias tenho aproveitado e muito.
(continua...)
ALENCAR, José de. Senhora. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1847 . Acesso em: 27 jan. 2026.