Por Lima Barreto (1921)
– Não; de ferro.
– Sim!
– Ferro agora vai valer mais que ouro e lá na minha fazenda tem um morrote bem grande que é só dele, de cima abaixo. O raio sempre cai lá e não é de agora que eu digo à mulher: Felismina, aquele morro tem ferro. Fiz uns doutores examinar uns pedaços dele que trouxe, e eles me disseram que é ferro e ferro de lei.
– Então vai vender? A quem?
– Aos americanos que são gente de dinheiro.
– Mas isso é contra a Pátria, coronel Teopompo!
– Qual Pátria! Qual nada! O que eu quero, é o cobre!
– Coronel, mas ...
– Olhe moço, quer saber de uma coisa?
– Pois não.
– Vocês não nos debocham a nós mineiros?
– Coisas inocentes...
– Inocentes! Vocês cariocas, quando são, e uns tais amarelões lá do Norte que enchem o Rio, dizem que nós somos forretas , sovinas e que até os cachorros da Barra do Piraí nos conhecem, por causa da nossa mesquinharia. Com São Paulo, vocês adulam porque...
– Que negócio é esse dos cachorros?
– Não sabe?
– Não.
– Pois eu conto. Na Barra tem muito cachorro vagabundo, sem dono, nem eira nem beira. Estavam acostumados, quando não havia casa de pasto, no trem, a esperarem os expressos, para petiscarem os ossos das galinhas assadas, restos de pão, etc., quando os passageiros faziam o seu almoço nos carros, sem sair dos seus bancos.
– Não havia um hotel?
– Havia, mas era um inferno. Tudo quente e a demora era pouca, de modo que quem queria almoçar à vontade ou jantar levava ou trazia o seu farnel. Quando veio a tal de casa de pasto no trem, nós mineiros procuramos comer nela. Era, porém, tudo muito caro, e logo a deixamos. Paulista que é prosa e arrota dinheiro, não fez assim. Continuou.
Os cachorros começaram a estranhar, mas logo descobriram que dos nossos trens de Minas continuavam a cair ossos e restos de comida. Fizeram o que qualquer faria: marcaram a hora dos “mineiros” e, quando chegam os nossos expressos, lá estão. Vocês por causa disso, fizeram uma caçoada danada, puseram essa coisa nos jornais e nos teatros...
– E que tem isso com o ferro?
– É que nós vamos ficar mais ricos que São Paulo e vamos luxar mais que os
biribas.
– Pobres cachorros!
– Está com pena? Arranje um asilo para eles.
O coronel foi-se com toda a sua esperança de ferro. Careta, Rio, 27-3-1920.
FALA O CORVO
Então o Corvo me disse:
Não sei para que os homens hoje fazem guerra. Antigamente, nós sabíamos perfeitamente que era em nosso proveito. Eles se batiam, feriam-se, matavam-se. Uns iam-se para um lado; outros, para outro. No campo, ficavam uma porção de cadáveres insepultos e era então um festim. Não há como a carniça humana, para nos dar um imenso prazer ao paladar. O sabor dela não é igual ao das outras. Difere muito e muito; e não está na inteligência dos corvos e dos seus meios de expressão, dizer em que consiste a diferença e definir-lhe o sabor.
Um nosso sábio já tinha procurado reduzir o sabor a número, para poder dar uma representação capaz dos prazeres do paladar. Mas não conseguiu; entretanto, um outro tinha organizado uma teoria da guerra que é cheia de justeza e profundeza.
“A guerra, diz ele, é uma atividade, ditada pelas forças ocultas da natureza, a fim de proporcionar aos corvos prazeres superfinos do paladar. A marcha obscura das coisas dita à atividade inconsciente dos animais inferiores, denominados homens, esse choque entre grandes rebanhos deles, do qual resulta a morte de milhares, a fim de que, por intermédio de um gozo mais requintado do paladar, os corvos se aperfeiçoem em inteligência. Não fosse a guerra entre os homens, os corvos, sempre alimentados por carniças inferiores, não teriam chegado ao prodígio de olfato e vista a que chegaram. A sua sociabilidade superior, donde lhes vem uma mais segura descoberta de carniças, nasceu dessa alimentação privilegiada que a guerra entre os homens lhes fornece. O seu vôo seguro, alto, planado, cada vez mais perfeito, também nasceu daí. A guerra entre os homens fez o progresso da raça solar dos corvos.” O nosso sábio assim se exprimiu sobre a guerra: e a sua teoria estava assente nas nossas escolas e sociedade sábias de tal modo que ninguém seria capaz de atrever-se a contestá-la, a menos que quisesse receber os piores tratamentos possíveis, e as injúrias mais desagradáveis.
(continua...)
BARRETO, Lima. Vida urbana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2171 . Acesso em: 8 maio 2026.