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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

Os companheiros ficaram sobressaltados. Gregório fez Olímpia assentar-se; procurou distraí-la conversando e ofereceu-lhe uns cajus, que nessa ocasião acabava de colher. Mas Augusto não reaparecia e a senhora tornava-se cada vez mais inquieta.

Afinal ouviu-se-lhe a voz, chamando pelos outros. A voz saía justamente da parte mais baixa da rocha, no lugar em que principiava a enorme fenda.

— Onde estás tu? perguntou-lhe Gregório, aproximando-se o mais que pôde do lugar donde vinham os gritos de Augusto.

— Estou aqui embaixo! Só há uma fenda, por onde nem um gato pode passar!

— E por que não voltas por onde foste?!

— Impossível! Vim deixando-me escorregar e não consigo subir! Já tentei várias vezes!

— E agora?!

— Agora é seguirem vocês por aí, que eu os vou encontrar mais adiante!

— Mas eu não conheço estes caminhos!...

— Não há que errar, disse Augusto, procurando meter a cabeça na fenda da rocha; tomas esse caminho, onde estão as palmeiras, e vais sempre seguindo à esquerda, até chegares à pedreira. Vão. Eu não posso ficar aqui por mais tempo, tenho água até aos joelhos! É verdade! não esqueças de levar o saco que trazia eu a tiracolo e que tirei para passar a rocha. Até logo!

— Até logo, repetiu Gregório.

— Sempre à esquerda! ainda recomendou o outro.

Olímpia não deu uma palavra durante o diálogo dos dois rapazes, mas deixou pela fisionomia bem patente o seu sobressalto.

— Nós o encontraremos ali mais adiante... disse Gregório, dando-lhe o braço. Vamos.

E puseram-se a andar silenciosamente. O caminho por onde voltavam era encantador, mas muito agreste. Olímpia por duas vezes queixou-se de que os espinhos lhe feriam o rosto. Gregório contentou-se em lembrar-lhe a coragem com que ela empreendera o passeio.

— É que tenho medo de nos perdermos aqui!... respondeu a senhora, com um princípio de mau humor. Além disso já estou fatigada e sinto sede!

— Tome um pouco de vinho, e se quiser podemos descansar um instante.

— Não! não! prefiro ir adiante; estou impaciente por chegar ao tal ponto em que nos encontraremos com o Augusto.

— Mas que mudança tão rápida foi essa?... ainda há pouco estava de tão bom humor, e agora...

— Parece-lhe que não devo estar aflita?...

— Não sei porquê...

— Imagine que não damos com o caminho e nos desencontramos do Augusto!

— Havíamos de achar saída!...

E, assim conversando, encontraram-se defronte de três picadas. Gregório hesitou qual devia escolher entre as duas que ficavam à esquerda.

— Que lhe dizia eu!... observou Olímpia, cruzando os braços.

— Deve ser esta. Não se mortifique... É por aqui com certeza!

E seguiram. Mas pouco depois tiveram novo embaraço: todos os caminhos deparados tomavam para a direita.

— Com certeza já estamos perdidos! observou Olímpia.

— E melhor seguirmos por aqui, disse Gregório. Esta picada vai com certeza dar ao ponto de que nos falou o Augusto.

A viagem, entretanto, ia cada vez se tornando mais difícil. Reproduziam-se os obstáculos. Olímpia observou que antes tivessem voltado pelo mesmo caminho. E continuaram a andar. De repente, porém, acharam-se defronte de mato virgem; era preciso voltar atrás, mas na volta já não encontraram o lugar por onde haviam ido; tomaram o primeiro caminho que apareceu, e desde então se puseram a andar à toa, ora para a esquerda, ora para a direita. Gregório gritou várias vezes, na esperança de ser ouvido por Augusto ou por qualquer outra pessoa; nada veio em seu auxilio. A floresta continuava a sussurrar indiferentemente.

Assim se escoaram duas horas talvez. Olímpia afinal declarou que não podia dar mais um passo sem ter descansado. Gregório conduziu-a para debaixo de uma árvore e fê-la repousar. Depois abriu o saco de Augusto, tirou uma garrafa de vinho, encheu um copo e passou-o à companheira.

— Temos aqui também o que comer, disse ele, apresentando uma empada, queijo e frutas.

Olímpia aceitou sem responder. Gregório foi buscar duas palmas largas de pindoba, estendeu-as defronte da rapariga e assentou-se ao lado dela.

Começaram a comer silenciosamente. Olímpia parecia muito preocupada; percebia-se todavia que a dificuldade de achar o caminho não era a causa principal do seu mau humor, e Gregório sentia-se constrangido por aquela situação a ponto de não encontrar o que dizer.

Nunca a influência amorosa, que aquela estranha mulher exercia sobre ele, o perturbara tanto, e nunca ele se achou tão tímido como naquela ocasião.

Depois da merenda, Gregório convidou Olímpia a prosseguir na jornada.

— Estou tão abatida!... disse ela, erguendo custosamente as pálpebras e estendendo os braços ao moço, para que a levantasse.

— Sente-se indisposta?... perguntou este com solicitude, segurando-lhe a mão.

— Não, disse ela suspirando e tentando pôr-se de pé. Mas Gregório teve que ampará-la, porque a histérica fechou os olhos e, empalidecendo, cambaleou.

(continua...)

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