Por Aluísio Azevedo (1884)
Amâncio desejava unicamente que o amigo procurasse por onde andava o Sabino, que agora lhe fazia falta; e, caso o encontrasse, tivesse a bondade de remeter-lho; pois seria um grande favor.
Veio à questão o quanto madraceavam os escravos ultimamente. Mme. Brizard jurou que não havia melhor vida do que a deles; disse que Amâncio fizera mal; em consentir que um negro de sua propriedade andasse por aí tanto tempo, sem lhe prestar contas; quando, alugado, lhe podia dar de rendimento pelo menos quarenta mil-réis mensais. E, de sua parte recomendou de Campos que fizesse diligências para descobrir o tratante e o deixasse ali, que ela mostraria se punha ou não a bom caminho.
O negociante retirou-se afinal, entre novos protestos e novos oferecimentos.
Mme. Brizard, o Coqueiro e Amelinha não abandonaram o quarto do doente até mais de meia-noite; ora um, ora outro, acompanhavam-no sempre. Lúcia também aparecia de quando em quando; ao passo que o marido, sem jamais acordar completamente, nem dera pelo reboliço em que ia a casa.
Por toda a parte sentia-se já o cheiro de alfazema queimada. O esquisitão do
n.° 4, muito comprido no seu poncho de brim pardo, que lhe batia desairosamente nas tíbias mal compostas, espaceava no corredor, cantarolando, em voz soturna o De Profundis .
Olha que agouro! Resmungou a mulher do Paula Mendes ao vê-lo passar e, já encolerizada pela demora do marido, fechou a porta do quarto com um pontapé. — Logo aquela noite é que o diabo do homem entendia de se demorara mais tempo na rua! Raios o partissem, diabo!
O Melinho, a pérola do n.° 9 , também aparecera; e o Piloto, a saber ,ainda na porta da rua, que havia um bexigoso no segundo andar, fez uma careta, benzeu-se comicamente, desgalgou pelo mesmo caminho que trazia, afetando trejeitos exagerado de medo. O guarda-livros é que bem pouco se incomodou com a notícia, tinha lá o seu gabinete ao lado da sala de visitas, e aí com certeza não chegariam os miasmas.
Estava em cima o Coqueiro a discutir com a família sobre quem devia acompanhar o enfermo durante o resto das noite, quando entro o Paula Mendes, estranhamente alegre, a cantar em voz alta. O dono da casa correu logo ao seu encontro e lhe pediu que não fizesse bulha. — O hóspede do n.° 6 estava de cama! Mendes respondeu com descostumada grosseria, arrastando a voz. Catarina ao vêlo naquele estado, fechou bruscamente a porta do quarto, que nesse mesmo instante havia aberto, e gritou-lhe de dentro “Que fosse cozinhar para longe a bebedeira! Que voltasse para onde se tinha emborrachado! Era só também o que faltava! — que, além de tudo, tivesse de aturar bêbados! Estavam bem servidos!”
E, todos, com grande espanto , se convenceram de que efetivamente o Paula Mendes vinha ébrio, logo que o viram principiar a bater, como um possesso, na porta do quarto, berrando pela mulher, sem se poder agüentar nas pernas.
— Pois senhores, disse Mme. Brizard, que acudira com o barulho, — estou pasma! Desde que o rabequista mora aqui é a primeira vez que o vejo assim!...
— Naturalmente isto foi coisa que lhe fizeram... opinou Coqueiro. — Ele, coitado, é até homem de bons costumes!...
Todos concordaram nesse ponto, e o hoteleiro, uma vez capacitado de que a peste da Catarina não abria a porta ao marido, carregou com este para o quarto que o Lambertosa acabava de despejar.
— Diabo! Resmungou, deixando-o cair sobre a cama. — Hóspedes que só dão de lucro estas maçadas!
Resolveu-se que seria o copeiro quem acompanharia o enfermo durante o resto da noite. O médico recomendara que dessem o remédio de três em três horas. Lúcia lamentou que, justamente nessa ocasião, a sua Cora estivesse em Cascadura ajudando a uma amiga a morrer, porque ao contrário Amâncio não teria outra enfermeira. “Ah! não havia como aquela mulata para tratar de um doente!...”
Mas o copeiro assumiu o posto que lhe designaram, e cada um se recolheu ao competente dormitório. Catarina ainda rabujou sozinha por algum tempo; o Paula Mendes caiu num sono de chumbo, e a casa foi a pouco e pouco se atufando nas brumas silenciosas da noite.
Só então , de tão fracos que eram , ouviam-se os bufidos cavernosos do tísico que, no triste abandono de sua miséria, continuava a gemer, sufocado pela dispnéia.
O desgraçado já não tinha forças par sair à rua. A sua moléstia entrara no segundo período; cresciam-lhe as dores do peito e apareciam-lhe agora, pela madrugada, acessos febris, acompanhados de suores frios e gordurosos.
A magreza desnudara-lhe os ossos, e o alimentos faziam-lhe repugnância. Como era muito pobre, ninguém se interessava por ele; os criados serviam-no mal e a más horas. Traziam-lhe a comida e depunham-na sobre o velador.” bodega lá que se arranjasse!”
Mme. Brizard, por mais de uma vez dissera:
— Também aquele estafermo não ata nem desata!...
* * *
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.