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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

- Como todo mundo, eu sempre fui muito apaixonada de flores; mas houve um tempo em que não as pude suportar. Foi quando se lembraram de ensinar-me botânica. 

- Quer isto dizer que tive a infelicidade de aborrecê-la com a minha conversa? 

- Eis o que é a prevenção! Consegui reconciliar-me com a botânica. Não há melhor calmante. 

Já estava escuro quando Aurélia se recolheu do jardim pelo braço do marido. D. Firmina os esperava na saleta já esclarecida com um doce crepúsculo artificial coado pelo cristal fosco dos globos. 

A viúva sentara-se à mesa do centro para devorar os folhetins dos jornais, e teve a discrição de voltar as costas para o sofá onde se tinham acomodado os noivos. 

Aurélia fatigada da comédia que representara durante o dia, recostara-se à almofada, e cerrando as pálpebras engolfou-se em seus pensamentos. Fernando respeitou essa meditação: tanto mais quanto seu espírito cedia também a uma irresistível preocupação. 

A noite causara-lhe um indefinível desassossego, que mais crescia agora com a aproximação da hora de recolher. Não sabia de que se receava; era uma coisa vaga, informe, ignota, que o enchia de pavor. 

Assim, cada um em seu canto de sofá, separados ainda mais pela completa alheação do que pelo espaço que entre ambos medeava, ela absorta, ele agitado, passaram esse primeiro serão de sua vida conjugal. 

D. Firmina, às vezes, nalgum ponto menos interessante do folhetim, aplicava o 

ouvido; e aquele silêncio suspeito a fazia sorrir pensando nos abraços e beijos furtivos que surpreenderia, se de repente se voltasse para o sofá. 

Com discreta malícia, a pretexto de procurar o lenço fazia menção de voltar-se para gozar do prazer de assustar os dois pombinhos. Então percebia um leve rumor; cuidando que eles se afastavam, quando ao contrário fingiam ocupar-se um do outro, para não traírem sua mútua indiferença. 

Pelo meio da noite Aurélia saiu da sala. Depois de uma pequena ausência durante a qual ouviu-se algum rumor, ela voltou a ocupar seu lugar no canto do sofá. 

Afinal a pêndula marcou dez horas. D. Firmina dobou seus jornais e despediu-se. 

Aurélia acompanhou-a lentamente como para certificar-se de que se afastava; depois do que cerrou a porta, deu duas voltas pela sala, e caminhou para o marido. 

Seixas viu-a aproximar-se pela estranha expressão que animava o rosto da moça. 

Era um sarcasmo cruel e lascivo o que transluzia com fulgor satânico da fisionomia e gesto dessa mulher. 

Só faltava-lhe a coroa de pâmpanos sobre as tranças esparsas, e o tirso na dextra. 

Em face do marido porém essa febre aplacou-se como por encanto; e surgiu outra vez do corpo da bacante em delírio a virgem casta e melindrosa. 

Aurélia tinha na mão dois objetos semelhantes, envoltos um em papel branco, outro em papel de cor. Ofereceu o primeiro a Seixas; mas retraiu-se substituindo aquele por outro. 

- Esta é a minha, disse guardando o invólucro de papel branco. 

Enquanto Seixas olhava o objeto que recebera, sem compreender o que isto significava, Aurélia fez-lhe com a cabeça uma saudação:

- Boa noite. 

E retirou-se. 

 

IV 

 

Seixas ao retirar-se fê-lo com tanta precipitação, que esqueceu-lhe o objeto fechado em sua mão; só deu por ele no toucador, ao cair-lhe no chão. 

Abriu então o papel. Havia dentro uma chave; e presa à argola uma tira de papel com as seguintes palavras escritas por Aurélia: chave de seu quarto de dormir. 

Ao ler estas palavras tornou-se lívido; e lançou um olhar esvairado para o reposteiro da câmara, em que entrara na véspera palpitante de amor e que não poderia nunca mais penetrar, senão ébrio de vergonha e marcado com o ferrete da infâmia. 

Com o movimento que fez descobriu uma modificação que sofrera o aposento. Fora arredado o guarda-roupa, que ocultava uma porta agora patente, e apenas coberta por uma cortina também de seda azul. 

A chave servia nessa porta que dava para uma alcova elegante, mobiliada com uma cama estreita de erable e outros acessórios. Era o mais casquilho dormitório de rapaz solteiro que se podia imaginar. 

Seixas, adivinhou pela onde de fragrância derramada no aposento, que Aurélia ali estivera pouco antes. Talvez saíra ao ouvir o rumor da chave na fechadura. 

(continua...)

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