Por Aluísio Azevedo (1882)
Ao chegarem ao fundo sombroso do vale, Olímpia não pôde conter a comoção. Era um lugar ameno, misterioso, cheio de encantos. De lá não se via a terra nem se via o céu; tudo era verdura. O chão desaparecia, alastrado pelas trapoerabas, que recamavam a grama com as suas mimosas florzinhas azuis. Das árvores só se viam as grandes copas aveludadas, porque os troncos desciam obliquamente dos montes que sitiavam o vale; algumas se equilibravam de cima, presas pelos pés, como enormes ramalhetes voltados para a terra. As infinitas trepadeiras, as caprichosas parasitas vingavam e serpenteavam por todos os lados, como se quisessem enastrar interiormente aquele ninho ideal de verdura pelo modo por que fazem os pássaros seus ninhos.
Por todos lados rebentavam flores, por todos lados se penduravam cipós, entrelaçados de avenca, e se agitavam as palmas esteadas dos coqueiros, forcejando para romper por entre as largas palhetas dos tinhorões e as línguas espinhosas da babosa.
A luz do sol só penetrava naquele doce interior de verdura depois de peneirada pela folhagem, pálida e amortecida como a claridade melancólica de um crepúsculo.
Os três excursionistas estacaram sem dar palavra, inteiramente dominados pelo religioso aspecto daquele rústico santuário panteísta. Tudo ali respirava uma grande paz, que ia, pouco a pouco, voltando nossos olhos para Deus, chamando nossos joelhos para a terra e nos abrindo o coração aos êxtases da prece.
Depois de mais alguns instantes de mística contemplação, os três seguiram para a gruta.
Entrava-se nela por uma abertura natural, indicada pela própria folhagem, que nesse ponto se tornava mais sombria. Mal porém transposta essa passagem, afastando com ambas as mãos os ríspidos galhos que a defendiam achava-se a gente num lugar inteiramente contrário ao que se acabava de deixar. Era uma estreita galeria em pedregal escuro e úmido, feita de penhascos acumulados uns sobre os outros, formando medonhas cavernas, onde apenas de espaço a espaço escorria algum trêmulo fio de luz.
Os negros pedregulhos, como sustidos por uma força estranha, empinavamse muitos metros fora da sua base, serpenteando por entre eles um corredor irregular e trevoso. Augusto seguiu por aí e os outros dois o acompanharam. À proporção que avançavam, ia o ar se tornando mais frio e o silêncio mais intenso. De todos os rumores de fora só chegava lá dentro um vozear confuso, que esfuziava de rocha em rocha. Olímpia parecia encantada pelo passeio e apertava no seu o braço de Gregório.
Depois de andarem um quarto de hora, deram a um lugar mais amplo e descoberto. Via-se então o céu por entre o rendilhado da floresta, que lá em cima crescia zombando dos rochedos. Algumas árvores se debruçavam no abismo e estendiam pela aridez da pedra seus retorcidos braços de gigante.
Mais alguns passos e começaram a ouvir o murmúrio de uma pequena cascata que corria lá embaixo. Era preciso agora segurar-se a gente com mais cuidado, porque o limo dificultava o caminho transformado em ladeira. A pedra aparecia rachada em vários pontos, cujas fendas só se podiam galgar com um salto.
Olímpia principiava a cansar de novo; as fendas reproduziam-se mais amiudadamente. Vão agora rareando as pedras; vão avultando as fisgas d’água. Terminou afinal a descida; já se não está sobre uma rocha, passeia-se num lago, guarnecido de ilhotas negras, que surgem aqui e ali, como para facilitar a viagem.
É este o ponto mais bonito da gruta. A vegetação surge de cima com mais abundância; os despenhadeiros são enfeitados com as trepadeiras e parasitas, que sobem e descem por eles, numa variedade riquíssima de flores. A água corre placidamente debaixo de nossos pés; ouvem-se cantar os pássaros e sentem-se os sopros embalsamados da floresta. De um lado principia de novo o campo, vê-se a terra e ouve-se o marulhar das folhas; do outro se agrupam penhascos, por entre os quais já não é possível transitar sem risco de vida.
Gregório deu a mão a Olímpia, fê-la subir a uma das pedras que se erguiam defronte deles e mostrou-lhe a cascata. A rocha era fendida em toda a sua extensão, formando magnífico efeito com os pedregulhos que se entremetiam por ela.
Augusto galgou uma das arestas do rochedo, disse aos companheiros que o esperassem um instante, enquanto ia ele observar se havia saída pelo outro lado da gruta. Olímpia e Gregório opuseram-se; achavam muito arriscada semelhante tentativa: a rocha era lisa de todo e escorregadia. Mas antes que os dois tivessem tempo de despersuadi-lo disso, já o temerário havia atingido uma das pedras que ficavam entaladas na fenda, e procurava, equilibrando-se, alcançar uma outra adiante. Afinal conseguiu e desapareceu pelo lado contrário do penedo.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.