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#Romances#Literatura Brasileira

Filomena Borges

Por Aluísio Azevedo (1884)

De suas mãozinhas aristocráticas saíram nomeações importantíssimas, licenças escandalosas, remoções, transferências, acessos de empregos, privilégios de companhias, concessões de engenhos centrais. Muita questão importante se resolveu com um simples sorriso.

Quando regressaram de Petrópolis foram habitar em S. Cristóvão, perto do palácio de sua Majestade. O monarca não queria o visconde de Itassu muito longe de si.

A casa deste transformou-se logo em um centro político. Aí, todas as noites se reuniam as figuras mais volumosas dos poderes públicos; aí se discutiam as mais graves questões do Estado; formavam-se e destruíam-se gabinetes; criavam-se e resolviam-se crises, conforme o capricho de Filomena.

— Ora, dá-se por isso?... Será crível que eu nunca mais obtenha um momento de repouso?... pensava o Borges.

Com efeito, sua pobre vida jamais esteve tão cheia de preocupações e tão carregada de responsabilidade. Quando o desgraçado saía do quarto, depois de uma noite mal dormida, já uma enorme selva o esperava, transbordante de jornais de cartas, requerimentos, ofícios, comunicados e o diabo, cujo expediente era preciso aviar e fazer subir quanto antes ao conhecimento de seu augusto amo.

Depois, tinha audiências; negócios inteiramente fora de sua competência vinham-lhe suplicar um parecer, pedir um auxílio.

Que luta!

Mas, além de tudo isso, era preciso atender aos colegas, aos amigos, aos políticos em atividade, que o procuravam todos os dias. De certo, era preciso constantemente envergar à farda, suportar as exigências do cargo, acompanhar o monarca, comparecer aos atos solenes da corte ou às reuniões particulares dos ministros.

E o Borges em vão se arrepelava, se maldizia e se punha fora de si.

Filomena, ao contrário, à semelhança de certas plantas caprichosas, que só vingam bem nos abrasados e altaneiros píncaros do rochedo, cada vez mais e mais se identificava às exigências do seu novo meio.

E protegia o marido à sombra de seus conselhos, amparava-o, conduzia-o, emprestando-lhe um lugar no, ginete de suas ambições e cedendo-lhe liberalmente todas as armas do seu espírito e toda a força da sua vontade.

O Imperador não disfarçava o bom conceito em que tinha a opinião do experimentado e sensato visconde de Itassu.

— É um homem de peso... dizia. — Não tem fulgurações de talento, mas sobra-lhe o tino! Homem de gabinete!

O Borges, o modesto e inofensivo Borges, viu então circularem ao redor de si os mais lisonjeiros comentários a respeito de qualidades, que ele nunca desconfiara que possuía. Viu atribuírem-lhe competência, das quais ele podia jurar que não dispunha; viu darem-lhe a paternidade de fatos de grande tática política, dos quais só chegara ao conhecimento pelas notícias do "Diário Oficial".

Mas, em compensação, os jornais ilustrados, os órgãos republicanos e algumas folhas diárias surgiam pejados de sátiras, de pilhérias e de caricaturas contra ele, a mulher e o monarca.

Deram-lhe alcunhas ridículas, inventaram-lhe biografias vergonhosos, crivaram-no de triolets insultuosos. Afirmou-se que Filomena Borges era de fato a imperatriz do Brasil; que ela, se não reinava sobre a nação, reinava sobre o monarca; que Sua Majestade, tomado de amores, deixava fazer de si o que bem quisesse a viscondessinha de Itassu, e que esta, abusando da posição, pintava o diabo com o pobre país, erguia e desmanchava gabinetes, com o mesmo capricho com que armava e desfazia os seus penteados e... os do marido.

Borges não sabia resistir a tais diatribes; ficava a ponto perder a cabeça quando as lia; mas, em vez de revoltar-se contra a própria fraqueza, atirava sua indignação sobre os inimigos do Estado, ao passo que a este ia se prendendo cada vez mais.

— Não dês a menor importância! acudiu o Guterres. — Deixa ladrar a inveja! — Mas que necessidade tenho eu de ouvir diariamente esses desaforos?...

— É uma questão de hábito, filho! Bem se vê que ainda não estás calejado nesta coisa! Pois querias fazer posição sem ouvir descomposturas?... Serias aqui o primeiro! — Quem tem mérito, tem inimigos! Mais tarde, quando os jornais já não disserem nada a teu respeito, hás de sentir até a falta desses mesmos desaforos que hoje te mortificam!

Mas o visconde, em vez de habituar-se ao que diziam dele, ia se enterrando progressivamente no azedume e no tédio; deixava-se tomar de um desespero irritativo e constante assanhava-se já por qualquer coisa, andava sempre de cara fechada, tinha palavras duras e gestos desabridos3 até com o próprio Imperador.

O Imperador!...

Pobre homem! bem longe estava ele de merecer as acusações que lhe faziam a respeito da afilhada!

Que estivesse impressionado pela gentil criatura, pode ser; mas é que o diabrete arranjava as coisas de tal jeito; que o bom monarca não conseguia ir além de seus desejos, se é que os tinha.

(continua...)

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