Por Aluísio Azevedo (1884)
As lunetas da “ilustrada senhora” haviam caído, e ela encarava o rapaz , sem dizer palavra, a lhe cravar os seus grandes olhos de míope, alterados pelo abuso do vidro de graduação.
Tiveram de disfarçar, porque alguém se aproximava.
O enfermo voltou logo aos lençóis e pôs-se novamente a gemer.
Era o Coqueiro quem vinha. Desde a entrada mostrou-se contrariado com a presença de Lúcia. Transpareciam-lhe no rosto os sintomas da desconfiança. Dir-seia um ciumento a penetrar de chofre nas recâmaras da amante.
— Aquela mulher não podia estar ali com boas intenções!...
E foi de mau humor que o Coqueiro respondeu a uma pergunta dirigida por ela a respeito da moléstia.
Lúcia, também não deu mais palavra e, logo depois saiu muito enfiada.
* * *
À noite apresentou-se o Campos, a quem o Coqueiro, de passagem, prevenira dos incômodos de Amâncio; trazia consigo um médico.
Este declarou incontinente que o rapaz tinha bexigas; mas antes que fizessem espalhafato, afiançou que eram benignas. “Bexigas doídas, cataporas, como vulgarmente chamavam por aí. Ficassem tranqüilos , que o caso não era grave; convinha , porém, ter algum cuidado com o doente: — evitar a ação do vento e muita limpeza com a roupa da cama.”
Receitou e saiu, prometendo voltar no dia seguinte. Campos seguiu-o até à escada do e tornou ao segundo andar.
A mulher do Paula Mendes, que abrira a porta do quarto para escutar o que dizia o médico, rompeu logo a falar dobre o abuso de consentirem ali “um bexigoso!”
Daquela forma, em breve a casa se transformava num hospital! Já lá tinham um tísico, que à noite não a deixava dormir com o gogo; agora era um bexiguento; amanhã seria a febre amarela e depois a lepra! – Arre! Em chegando o marido havia de mostrar o que faria!
Lambertosa, a pretexto de que sentia muito calor, empacotou o que tinha no quarto e lá se foi moscando à francesa.
— Nada! segredou ele embaixo ao Fontes, que jogava o dominó com a mulher na sala de jantar. — Tenho medo disto que me pélo; em pequeno vi morrer três sujeitos de pancada com as tais cataporas! Vou para a chácara de um amigo nas Laranjeiras! E, se a madame não tratar de pôr fora o doente, eu também aqui não porei mais os pés!
E, vendo que o Fontes parecia impressionado com as suas palavras:
— Pois não acha o amigo que não tenho razão?...Pode-se lá admitir um varioloso dentro de uma casa como esta, cheia de hóspedes?...
— Está claro! Disse a mulher do Fontes, empurrando as pedras do dominó. – Eu também aqui não fico! Ou o doente se mudas ou então mudo-me eu! E logo o quê! — bexigas! Deus nos defenda! Até parece que já sinto um formigueiro por todo o corpo...Credo!
— Sim, disse o marido, — mas não acredito que Mme. Brizard esteja disposta a ficar com ele dentro de casa!
O gentleman havia desaparecido, como se levasse uma fera atrás de si; os dois outros ergueram-se conversavam assustados sobre o grande fato; enquanto Nini, que, desde às cinco horas jazia estendida em uma cadeira ao canto da varanda, com um lenço amarrado na cabeça, escutava-os silenciosamente, os olhos pendurados no vago
Depois daquela cena violenta com Amâncio, a pobre criatura se quedara mais apreensiva e mais triste. Eram suspiros sobre suspiros e nem uma palavra durante o dia inteiro; às vezes dava-lhe para chorar e não havia meio de a conter.
Em cima o Campos tomou o chapéu e o guarda-chuva, mas, antes de sair, consultou a opinião do Coqueiro e de Mme. Brizard sobre o que melhor convinha fazer a respeito do varioloso. “Talvez fosse mais acertado levá-lo para uma boa casa de saúde!...— Eles que se não constrangessem: se era inconveniente ficar ali o rapaz, falassem com franqueza, porque tudo se podia arranjar perfeitamente.
Mas os locandeiros protestaram logo, com energia: — Longe de ficarem constrangidos, tinham muito gosto em ser úteis ao Dr. Amâncio. — Que o já estimavam tanto, que não teriam ânimo de o desamparar, justamente quando o pobre moço, longe da família, mais precisava de cuidados!
– Verdade é que as bexigas não são das más...considerou o negociante, alisando o pêlo de seu chapéu alto. — Mas os outros hóspedes talvez não pensem como a senhora e seu marido...E daí, quem sabe?...queiram deixar a casa e...
Mme. Brizard declarou que por esse lado estava sossegada. “Os bons hóspedes não desertariam por tão pouco, e quanto aos maus, se fossem não fariam falta.”
Campos agradeceu pelo recomendado aquela boa vontade; tornou a dizer que não poupassem despesas com a moléstia e, quando porventura houvesse alguma dívida ou alguma dificuldade, era mandar imediatamente um recadinho à Rua Direita, que ele lá estava sempre às ordens.
E ainda voltou ao quarto do rapaz para lhe rogar mis uma vez que não tivesse receio de importuná-lo em qualquer ocasião e, outrossim, para saber se, por enquanto, ele não precisava de mais alguma coisa.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.