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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

A moça trajava de verde. Ela tinha dessas audácias só permitidas às mulheres realmente belas, de afrontar a monotonia de uma cor. Seu lindo rosto, o colo harmonioso e os braços torneados, desabrochavam dessa folhagem de seda, como lírios d'água levemente rosados pelos rubores da manhã. 

Quando a porta abriu-se para dar-lhe passagem, Seixas cuidou que assistia à metamorfose da ninfa transformada em loto. Mas logo depois admirando a graça que se desprendia dessa peregrina gentileza como a irradiação de um astro, pareceu-lhe antes que a flor tomava as formas da mulher e animava-se ao sopro divino. D. Firmina trouxera da rua muitas novidades. 

Recomendações de umas amigas de Aurélia; mil inquirições de outras acerca do casamento; elogios dos noivos; e toda a outra bagagem de agradáveis banalidades, que na máxima parte compõem a vida nas grandes cidades. 

Com esta provisão encarregou-se ela de preencher a meia hora que faltava para o jantar. 

- É voz geral, que não se podia escolher um par mais perfeito, disse a viúva a modo de resumo. 

- Já vê que nos casamos por unânime aclamação dos povos, observou Aurélia sorrindo-se para o marido. Nada nos falta para sermos felizes. 

- Mais do que eu sou, não é possível, tornou Seixas.

- Esta primazia me pertence, e não lha cederei! 

D. Firmina aplaudiu essa contestação que revelava os extremos de amor dos noivos um pelo outro. 

O jantar correu como o almoço. Aurélia isenta do enleio, ou antes opressão, que a tolhia quando se achava só com o marido recobrava na presença de D. Firmina e dos criados, a sua feiticeira volubilidade, na qual um observador calmo notaria certa irritabilidade nervosa, habilmente encoberta com a galanteria do gesto e a graça do sorriso. 

Seixas não se demoveu da sobriedade que havia guardado pela manhã, senão para aceder aos desejos da mulher, a qual por mais de uma vez exerceu essa tirania feminina, que à semelhança de certas realezas, compraz-se com as minúcias. 

Ao levantarem-se da mesa, Fernando dirigiu-se à porta do jardim e esperava divagando os olhos pelo arvoredo, que dessem destino ao resto da tarde. Aurélia aproximou-se enquanto D. Firmina estava ocupada em arranjar a cauda de seu vestido nesgado, moda a que ainda se não pudera habituar. 

- Que bela tarde! Exclamou a moça ao lado do marido. 

Logo sombreando a voz disse-lhe quase ao ouvido, com tom rápido e incisivo: 

- Ofereça-me o braço! 

Depois prolongando a exclamação, continuou mostrando no horizonte uns arrebóis encantadores, em que os mais finos matizes se cambiavam sobre a nívea polpa de um grande cirro que de repente incendiou-se como um rosicler de fogo. 

- Veja; até o céu está festejando a nossa ventura. Quem já teve desses fogos de artifícios que o sol preparou para obserquiar-nos? 

- É pena que não possamos... que eu possa gozar da festa mais de perto, para melhor apreciá-la. 

Aurélia voltou-se rapidamente para fitar no semblante do marido um frio olhar de interrogação; mas Fernando contemplava as gradações da luz no ocaso, e só voltou-se para oferecer o braço à mulher, conforme a recomendação que recebera. 

Fê-lo porém, mais com o gesto, pois as palavras apenas murmuradas, mal se ouviram. 

Acenda seu charuto, disse a moça vendo que ele esquecia-se desse pormenor, apesar de lhe ter o criado oferecido fogo. 

Aurélia conduziu o marido a um caramanchão que havia no meio da chácara, e cuja espessa ramada os escondia às vistas de D. Firmina, e do jardineiro e hortelão que andavam na lide costumada. 

Seixas tinha umas tinturas de orquídeas e parasitas que havia colhido um verão em Petrópolis, no tempo em que a cultura e o estudo desses dois gêneros de plantas esteve na moda, e para alguns degenerou em mania. Como um dos leões fluminenses, estava ele na obrigação de sujeitar-se a esse novo capricho da soberana, e cumpria-lhe habilitar-se para em uma reunião nomear por sua designação científica a flor da moda que ornava uma gruta de jardim ou um vaso de sala. 

Justamente embaixo do caramanchão havia uma bela coleção de orquídeas, que o jardineiro ali guardara do sol. Fernando aproveitou-se do tema, para fazer mostra dos seus conhecimentos botânicos. 

Aurélia ouvia-o com atenção; só quando o marido parecia ter esgotado o assunto, foi que ela encartou com reflexão. 

(continua...)

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