Por Camilo Castelo Branco (1882)
Frei João de Borba da Montanha, conquanto não frequentasse o púlpito, era o vulto mais proeminente da missão. Saíra já velho do Varatojo, peito fraco, um pigarro crónico de catarro pituitoso, com poucos dentes, por onde as palavras lhe saíam assobiadas que nem melro nos sinceirais de Julho. Por isso o confessionário era a sua faina de prospérrimas colheitas para o Céu, e os exorcismos a sua famosa glória cheia de triunfos sobre todas as esquadras dos demónios conhecidos do seu companheiro padre Azenha. Eram ambos, de mãos dadas, o terror do Inferno; um a explorar diabos no planeta, o outro a enxotá-los. À omnipotência deste varatojano é que o vigário de Caldelas confiara a redução da mãe de José Dias.
Este egresso tinha feito à sua custa a terceira edição do Pecador Convertido ao Caminho da Verdade, obra do seu conventual varatojano Frei Manuel de Deus. Vendia o livro por 720, meia encadernação. Chamava-lhe ele o seu balde de tirar almas do profundo poço do enxofre infernal. Todas as beatas se consideravam mais ou menos empoçadas, e por 720 metiam-se no balde de Frei João. Barato.
Foi este o missionário escolhido por Simeão, de harmonia com o genro. Marta lembrava-se que o seu José Dias lhe falara nele com muita esperança em que desfizesse os obstáculos do casamento. Quis confessar-se ao varatojano. e revelou para esse acto uma expectativa seráfica, grande deliberação ansiosa, um sobressalto jubiloso em que parecia influir a cooperação sobrenatural do querido morto. O padre Osório entrevia prelúdios de loucura nas alegres disposições com que Marta, num recolhimento contemplativo, desde o apontar da aurora, esperava à porta da igreja que chegassem os missionários com o cortejo das mulheres encapuchadas, muito ramelosas, estralejando os seus tamancos ferrados na grade do adro que vedava a passagem aos porcos.
Enquanto na igreja, depois da missão, se depunha a hóstia nas línguas saburrentas e gretadas das beatas – que engoliam aquela farinha triga como quem devora sevamente um Deus – cá fora armavam-se no adro dois tabuleiros, assentes em tripeças de engonços, com seus pavilhões de guarda-sóis de paninho azul. Algumas mulheres de aspectos repelentes, sujas da poeira das jornadas, com os canelos calosos e encodeados, expunham nos tabuleiros as suas mercadorias, e ao mesmo tempo injuriavam-se reciprocamente por velhas rixas invejosas à conta de subornarem freguesas com caramunhas e palavreados. No silêncio do templo, ouvia-se cá de fora: – Arre, bêbeda! – Cala-te aí, calhamaço!
A exposição bibliográfica, feita nos tabuleiros, além das obras em brochura e encadernadas dos missionários, constava da Regra de S. Bento, da Missão Aumentada, da Missão Abreviada, das Piedosas Meditações, das Horas do Cristão, do Mês de Maria, do Mês de Jesus e do Livro de Santa Bárbara. Havia também Novenas, Via-sacras com estampas de um horror sacrílego, uns Cristos que pareciam manipanços do Bié. Seguia-se a camada dos Escapulários; uns eram de N. S. do Carmo, de N. S. das Dores, da Conceição; outros do Preciosíssimo sangue de Jesus, do Coração do mesmo, da Santíssima Trindade e de S. Francisco. Tinham grande saída os Cordões do mesmo santo, e as Correias de S. Agostinho, com um botão de osso, a apertar na cintura – arnês impenetrável ao Diabo, por causa do botão, que, posto na correia, tem virtudes para osso muito admiráveis, quase como as da carne, mas no sentido inverso – ela atraindo o cão tinhoso, e ele repulsando-o. De Santo Agostinho e do Anjo da Guarda também havia Rezas enfiadas em metal, ou em cordão, simplesmente, mais baratinhas. Na espécie medalheiro, grande profusão: as medalhas mais procuradas eram as do Coração de Maria do Coração de Jesus, do Anjo da Guarda e de Santa Teresa, a 10 réis.
As coroas, penduradas em barbantes ou estendidas em meadas, eram diversas no tamanho e na nomenclatura: as seráficas com sete mistérios, e cada mistério com dez ave-marias; as da Srª da Conceição com doze Aves e três mistérios: – uma certa conta que os missionários lá graduavam com a gafaria espiritual das confessadas. Havia algumas que se aguentavam com os Rosários de quinze mistérios, e a Coroa dos nove coros dos Anjos, e a do Preciosíssimo sangue e coração de Jesus. Mas o grande consumo era de contas de azeviche, refractárias aos maus-olhados; de modo e maneira que, se o azeviche é legítimo, senhores, logo que um inimigo nos encara a conta racha de meio a meio.
Marta, a beata, a senhora brasileira de Prazins, como lhe chamavam as regateiras das drogas da salvação, fornecera-se de tudo em duplicado; mas sobre todos os devocionários o da sua leitura dilecta era o Pecador Convertido ao Caminho da Verdade, edição do seu confessor varatojano, Frei João de Borba da Montanha.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. A brasileira de Prazins. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1778 . Acesso em: 17 jun. 2026.