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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

É bom levar consigo uma forte bengala ou pedaço de bambu, porque o terreno é muito acidentado e sujeito a cobras. Às vezes quase que se torna impraticável a viagem: encontram-se ângulos de pedra nua, que surgem por entre a verdura como os cotovelos de um mendigo por entre mangas rotas.

Em tais casos o remédio é subir de gatinhas e passar depois a ponta do bambu ao companheiro para lhe poupar aquele incômodo. Outras vezes são os espinhos que se apresentam para obstar a passagem; entra então a gente, deixando-se arranhar à vontade pelos espinhos, e grita para trás aos companheiros que se acautelem.

Se estes porventura são pessoas de expediente, afastam com a bengala os galhos espinhosos, e passam adiante; se o não são, melhor será que voltem para casa e se deixem de passeios à gruta, porque depois dos espinhos aparecem cipós da grossura de todos os dedos, e os quais se nos enredam pelas pernas, pelo tronco e pelo pescoço, só nos deixando continuar o passeio depois de os havermos cortado com um facão.

Foi nestas circunstâncias que se achou Olímpia no tal domingo a que nos referimos.

À mesa do almoço, em conversa, se falara da gruta.

— Que gruta?... perguntou ela, já mordida de curiosidade.

O Papá Falconnet tratou logo de explicar o que vinha a ser a gruta, encarecendo-lhe o valor, conforme era de seu costume sempre que se referia a qualquer objeto relacionado com a Avenida Estrela.

— Vou visitá-la, disse a filha do comendador, com um gesto resoluto.

— Mau! resmungou o pai, sem ânimo de a contrariar. E acrescentou em voz alta: — Faço idéia do que não será a tal gruta!...

— Em todo o caso tenho vontade de ir vê-la, e irei! respondeu Olímpia.

— Não sei se V. Exa. fará bem... observou o padre Almeida, que até aí parecia não haver prestado atenção à conversa. Aqueles caminhos são perigosos...

E, como Olímpia o interrogasse com um gesto, ele acrescentou:

— É que V. Exa. pode perder-se...

— Não deve ser tanto assim, replicou ela.

— Todavia, é bom não se fiar muito, minha senhora! volveu o padre, pondo intenção nas suas palavras.

— Não tenho medo! disse Olímpia, sacudindo os ombros. E resolveu que depois do almoço faria uma excursão à gruta. Gregório ofereceu-se logo para acompanhá-la.

— Aceito com muito prazer, respondeu ela, agradecendo-lhe o oferecimento. Outras pessoas aderiram em seguida à idéia, e ficou decidido o passeio.

— Queira Deus que te não suceda alguma coisa!... observou o pai de Olímpia, assim que a pilhou só. Tu andas fraquinha, minha filha; não deves abusar muito!...

— Ora! redargüiu ela, sacudindo os ombros; não hei de morrer de velhice!... Além de que, o médico me aconselhou fazer exercício!...

— Mas não indo à tal gruta, que, ouvi dizer, é muito longe daqui e quase inacessível!

— Não deve ser tanto assim!...

E às duas horas puseram-se todos a caminho. O comendador não resistiu ao desejo de acompanhar a filha; mas, depois de subir uns duzentos passos, já não podia ir adiante e debalde procurava convencê-la de que devia voltar com ele. Olímpia, apesar de muito cansada, declarou que o pai queria um absurdo, e continuou a excursão.

O comendador ainda tentou prosseguir na viagem, mas toda a sua boa vontade foi inútil. Assentou-se por terra com outros companheiros que haviam desistido igualmente, e pouco depois voltava com estes para casa.

Só três não desistiram: Olímpia, Gregório e o Augusto.

Este último ia à frente rompendo a marcha, o que aliás pouco lhe custava, graças à destreza de que dispunha e ao seu vivo instinto de fragueiro. Às vezes o caminho se fechava de todo ou tomava uma direção despercebida à primeira vista, Augusto suspendia-se então por um cipó, ou singrava por entre o mato, gritando pouco depois aos companheiros.

— Tomem a esquerda! Cá está o caminho! Cuidado com os espinhos à direita!

Outras vezes era a ladeira que se fazia mais íngreme, e Augusto tinha de improvisar um corrimão para que os outros dois a pudessem galgar.

E, só depois de muito matejar, foi que os três chegaram a um ponto mais elevado da montanha, planalto que se debruçava pitorescamente sobre um vale profundo e sombrio.

— É ali em baixo a gruta! exclamou Augusto, apontando para a várzea. — preciso agora descobrirmos a descida. Ah! ei-la! Por aqui! por aqui! Cuidado no sentar o pé, porque esta pedra escorrega muito!

Gregório dava a mão a Olímpia, para ajudá-la a descer. Ela quase não falava por toda a viagem, mas sentia um grande encanto em tudo aquilo. Nunca fizera um passeio tão penoso e tão agradável; nunca houvera visto de perto os rebentões das matas, formando os mais caprichosos arabescos; nunca se penetrara desse ar embalsamado dos campos, que nos alegra o sangue e nos faz amar a natureza; nunca ouvira os sons eólios da floresta, que nos despertam na alma as notas adormecidas da infância; nunca bebera a luz do sol depois de filtrada por uma abóbada de verdura, e nunca ouvira tão perto o concerto amoroso dos pássaros e o crepitar harmonioso das folhas secas estalando ao sol.

(continua...)

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