Por Aluísio Azevedo (1884)
— Eu sei cá o que quero! Quero fazer a vontade a Filomena, mas isso, já se vê, sem me colocar na crítica situação em que me acho! Eu lá sei p'ra que lado fica o serviço de que me querem encarregar!...
— E que necessidade tens tu de entender disso?... Acaso alguém te reclama habilitações?... Alguém te pede competência?... Porventura os mais que são nomeados para os outros cargos apresentam-se aptos para desempenhá-los?... Ora, por amor de Deus! Estás na aldeia, e não vês as casas? Quem sabe se pretendes reformar os costumes!... Quem sabe se queres ser a palmatória do mundo!...
— Nada disso me convence de que devo aceitar um cargo, sem ter habilitações para exercê-lo!
— Mas, João, vem cá, repara que estás no Brasil e lembra-te de que aqui os empregos de confiança do governo, sejam eles de que gênero for, nada tem que ver com as aptidões individuais de quem os vai desempenhar! Que diabo! Não vês aí todos os dias ministros da guerra, que não conhecem patavina do militarismo? Não vês que os ministros da agricultura não sabem para que lado fica a lavoura; que o ministro do império, a cargo de quem está a instrução pública, já faz muito quando sabe ler e escrever corretamente?... Não vês que o ministro da fazenda não pesca nada de economia política; que o da pasta de estrangeiros não entende coisa alguma de política internacional? E assim o da marinha! e assim todos eles! e assim todo o mundo! Oh!
Essas razões, longe de convencerem o Borges, mais lhe irritavam os nervos.
— Não! bradou ele, furioso. Não! Não posso, não devo aceitar semelhante cargo! seria uma velhacaria! Não quero!
— Bem diz o provérbio que Deus dá nozes a quem não tem dentes! sentenciou o outro. — Ah! se fosse eu o nomeado; havia de te mostrar que...
— Queres tu ficar com o emprego?!... perguntou o barão, limpando o rosto, que se inundava o suor.
— Ora! Se fosse possível, que dúvida!... — Vais ver se é ou não possível!
E nesse mesmo dia, o Borges, logo que pilhou o Imperador, foi-se atravessando defronte dele e dizendo abertamente que não podia aceitar o cargo de superintendente, mas que designava o Guterres para o substituir.
— É um pouco difícil de contentar seu marido! observou D. Pedro a Filomena, quando se encontrou com ela.
— Não sabia que era tão exigente!
— Exigente?!... perguntou a baronesa.
— Não se dá por satisfeito com o cargo que lhe ofereci. E, no entanto, agora é quase impossível dar-lhe coisa melhor!...
Filomena surpreendeu-se muito agradavelmente com essas palavras do monarca: — Pois seria possível que o Borges já fizesse daquilo?... Ah! Não julgava que o marido fosse capaz de um rasgo de ambição!
— Bravo! bravo! aplaudiu ela consigo. E tratou logo de confirmar a opinião do esposo. — No fim de contas, ele não deixa de ter alguma razão, coitado! Vossa Majestade há de concordar que o tal cargo é muito insignificante para um homem de aspirações e de talento! Superintendente! Ora, que vale isso!
Bom! bom! Já sei! já sei o que devo fazer enquanto não lhe arranjo melhor emprego! Vou trocar-lhe o título por outro, por um título brasileiro e mais alto — vou fazê-lo visconde! Não ficará ele satisfeito?!
Filomena apressou-se a beijar a mão de seu augusto padrinho: — Oh! Vossa Majestade é magnânimo!
— Engana-se! Não sou: — faço-me, para dar-lhe o exemplo disse o monarca piscando o seu olho azul do lado esquerdo.
Mas teve logo de disfarçar, porque alguém se aproximava.
CAPÍTULO XXI
TORNIQUETES
Foram inúteis todos os novos esforços do Borges para recusar o cargo. Teve de entrar logo em exercício de suas funções.
Ora a minha vida! lamentava ele, sozinho, a espacear pela quinta do Imperador. Ter de entrar na carreira pública depois dos cinqüenta anos de idade!
Esta só a mim sucede!
Sua Majestade não tardou a puxá-lo bem para junto de si fazê-lo dos do seu peito. E, com enorme espanto do Borges, chegava a consultá-lo em questões completamente estranhas ao pobre homem. Ás vezes, pedia-lhe conselhos.
— Homem, majestade!... para falar com franqueza, eu...
— Já sei, já sei! Não lhe é simpático o negócio! Eu também sou quase desse parecer...
Perdão, perdão! não é isso!... mas é que...
E o Borges, a contragosto, ia pesando nas coisas do Estado, ia-se articulando às engrenagens do governo, ia-se deixando invadir secretamente por todas as sutilezas da política.
Eu, jurava ele com os seus botões — eu, quando menos o esperarem, fujo!
desapareço por uma vez, e ninguém saberá para onde fui! Posso lá com semelhante modo de vida!
Não obstante, quatro meses depois disso, a condessa de Itassu era já o melhor empenho para o Sr. D. Pedro de Alcântara. Pretendente que se apadrinhasse com ela podia ter a certeza de obter o que desejasse.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.