Por Aluísio Azevedo (1884)
Queria passar pelo quarto da mucama, que ele agora sabia ao certo onde era; mas, na ocasião em que entrara na sala de jantar, deteve-se cautelosamente com a presença de um vulto que acabava de aparecer do lado oposto. A custo reconheceu Coqueiro; do lugar onde se achava podia observar sem ser visto. O dono da casa atravessou a pé a varanda e, encaminhando-se para o fundo do corredor, sumiu-se no tal sítio, por onde justamente queria passar o outro.
— Será possível?...considerou Amâncio, que se adiantara precatamente para certificar-se do que vira.
— Que grande velhaco!
E era aquele tipo que, “por moralidade não admitia em casa certas visitas!...”
— Ah!, meu pulha! Pensou o estudante.
— Como podia agora tomar a sério a casa de Mme. Brizard?...Que juízo devia fazer de toda aquela gente? E Amelinha? o que vinha a ser aquela Amelinha?...
Dois espirros cortaram-lhe a teia dos raciocínios, e em seguida um calafrio muito penetrante lhe percorreu o lombo. Sentiu-se indisposto; não obstante, desceu ao banheiro. — Aquilo desapareceria com um pouco d’água pela cabeça.
Mas, quando voltou ao quarto, já lhe doía o corpo e tinha as pernas entorpecidas levemente.
Tomou uma chávena de café, bebeu um gole de conhaque, e meteu-se na cama, tiritando.
Não se pôde erguer no dia seguinte. Coqueiro apresentou-se-lhe no quarto, logo pela manhã, muito sobressaltado com os incômodos do querido hóspede. Estava mais inquieto do que se tratasse de salvar a vida de um parente insubstituível.
Perguntou se Amâncio queria médico; se precisava de alguma coisa. — Que diabo! Dispusesse com franqueza. Ele estava ali às suas ordens!...
O doente apenas desejava que o amigo desse um pulo à agência dos vapores e trouxesse o constante de um conhecimento , que lhe pediu para procurar nas algibeiras do fraque.
Coqueiro obedeceu prontamente.
Era um pacote de doces que lhe enviava a mãe. Havia frasco de bacuris em calda. Muricis, cajus cristalizados e buritis em massa para refresco. Amâncio , logo que o colega voltou com o presente, fez acondicionar tudo sobre a mesa, defronte de sua cama.
Nesse instante, Mme. Brizard e Amelinha invadiam-lhe o quarto, ávidas de informações.
— Que tinha o Sr. Vasconcelos? — Que sentia? Como lhe aparecera febre?
E a francesa, depois de consultar o pulso ao rapaz, afiançou que aquilo não valia nada. Ele que tomasse um suadouro, que se deixasse ficar na cama e havia dever que no dia seguinte estava pronto.
Lambertosa, chegando logo em seguida, pediu ao doente que aceitasse uma dose de acônito e deixasse o resto por sua conta.
Mas a febre recrudesceu depois do almoço. Amâncio queixava-se de dores na cabeça, na espinha e nos quadris.
— Tudo isto é ar! Afirmou o gentleman autoritariamente. — Acônito! Dê-lhe com o acônito!
Foi Amelinha a encarregada de ministrar ao doente, de hora em hora, uma colher do remédio.
Mme. Brizard falou muito da inconstância do clima do Rio de Janeiro, das precauções que se deviam tomar contra as umidades; do risco que havia em comer certas frutas e, afinal, retirou-se, tendo apalpado ainda uma vez o pulso e a testa do hóspede.
Amelinha revelava-se extremamente solícita. Andava no bico dos pés, a borboletear pelo quarto, arrumando os livros sobre a mesa, apanhando a roupa espalhada pelo chão, acudindo a qualquer movimento do estudante, que dormia entanguecido de baixo dos lençóis. Ele, coitado, parecia cada vez pior. Ardiam-lhe os olhos desabridamente; o hálito queimava; não podia suportar o cheiro do fumo e queixava-se de muita sede e comichão pelo corpo.
Amelinha, sempre irrequieta e passarinheira, preparava-lhe copos d’água com açúcar. Agachava-se à borda da cama, mexia e remexia com a colher o sacarífero calmante e, depois de o provar com a pontinha da língua, passava-o às mãos de Amâncio. Este, porém, mal bebia, voltava-se de novo para a parede, gemendo de olhos fechados.
Pelas duas horas da tarde, Lúcia pediu licença para lhe fazer uma visita. Entrou cheia de cerimônia, e assentou-se gravemente em uma cadeira, à cabeceira do leito.
O doente voltou-se logo e agradeceu aquela fineza com um olhar muito triste e injetado de sangue.
Ela mostrava-se interessada; pedia informações a respeito da moléstia.
Amâncio respostava com dificuldade. Parecia moribundo.
Mas, quando Amélia saiu e desceu ao primeiro andar, ele tomou rapidamente as mãos da outra e cobriu-as de beijos que a febre tornava mais ardentes e mais queimosos.
— Eu te amo! Eu te amo! dizia ele.
— Bem, mas fique quieto! Isso lhe pode fazer mal! Retrucava a suposta mulher do Pereira. — Nada de tolices! Deite-se! Deite-se!
Amâncio libertou os braços do cobertor, apoderou-se da cabeça de Lúcia , e começou a beijar-lhe os olhos, a boca e os cabelos, numa sofreguidão irracional.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.