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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

Afinal recaíram nas fotografias. Desta vez foi o álbum dos conhecidos que forneceu matéria. Em um dos primeiros cartões figurava o Lemos, cuja aparição coincidiu com esta observação de Aurélia: 

- O álbum das pessoas de minha amizade, eu o guardo comigo. Estes são álbuns de sala, tabuletas semelhantes às que têm os fotógrafos na porta. 

- Mas não apresentam de certo as antíteses curiosas das tabuletas. Os tais senhores parece que o fazem de propósito; não há mais perfeita democracia. 

Seixas, emérito conhecedor da rua do Ouvidor, começou a especificar alguns dos contrastes de que se recordava; abstemo-nos porém de reproduzir suas observações, que ressentiam-se de singular mordacidade. 

Esse tom cáustico não era natural ao mancebo, cuja índole benévola e afável, nunca passava de uns toques de fria ironia. Ele próprio já notara em si essa alteração de seu caráter, e achava um sainete especial em saturar-se do fel que tinha no coração. 

Ao cabo de algum tempo notou Fernando que Aurélia erguia freqüentemente os olhos para a pêndula, e disfarçou, porque ele também interrogava amiúdo e furtivamente o mostrador, ansioso de ver escoar-se o dia. 

Uma vez os olhos de ambos encontraram-se, quando buscavam a pêndula. Aurélia corou de leve: 

- Cuidei que fosse mais cedo! disse ela. 

- Como passa rapidamente o tempo! exclamou Fernando. Quase três horas.

- Ainda falta muito. São apenas duas e um quarto. 

- Ah! É verdade. 

- Talvez esteja atrasado! observou Aurélia. Consulte seu relógio. 

Havia uma diferença de minuto e meio entre o relógio de Seixas e a pêndula da sala. Foi o pretexto para consumir o resto do tempo. Aurélia quis acertar a pêndula; aproveitou a ocasião para dar-lhe corda; depois do que veio uma discussão acerca da conveniência de mudá-la para outro consolo. 

- Já três horas? exclamou afinal a moça. É tempo de vestirmo-nos para o jantar. Até logo! 

Aurélia fez um gracioso aceno de fronte ao marido e desapareceu pela porta, que dava para o seu toucador. 

Quando ela entrou nesse aposento e fechou a porta sobre si, não teve tempo de desatar o corpinho do vestido; meteu as mãos pelo ilhós e magoando os dedos mimosos nos colchetes, despedaçou a ourela para não sufocar. O coração que ela recalcara por tanto tempo sublevava-se afinal, e estalava nos soluços que lhe dilaceravam o seio. 

De seu lado Fernando, ao ficar só, respirava, como um homem que repousa de uma tarefa laboriosa e fatigante. Ele desejaria sair daquele teto, perder de vista a casa, ir bem longe daí para gozar desses momentos de solidão e recuperar durante uma hora sua liberdade. Mas um passeio, e ainda mais solitário, não era conveniente no dia seguinte ao de um casamento de amor. 

O criado pediu licença para entrar. 

- O senhor precisa de mim? 

- Não, obrigado. A que horas janta-se? 

- Às cinco, se o senhor não der outra ordem. 

- Bem. 

- O senhor não sai a passeio depois de jantar? De carro ou a cavalo? 

- Não. 

- Sei que não é próprio logo nos primeiros dias do casamento, mas foram as ordens que recebi; que nada faltasse ao senhor. 

- Quem as deu? 

- A senhora. 

Este cuidado que em outra circunstância lhe causaria íntimo prazer, em sua posição humilhava-o. Sentia a influência da tutela que pesava sobre ele, e o reduzia à condição de um pupilo nupcial, senão coisa pior. Mas estava resignado às duras provações da situação, a que seu erro o submetera. 

Ainda nessa ocasião, Seixas revelou uma nova alteração em sua índole, ou pelo menos em seus hábitos. 

Ele tinha essa flor da ingênua elegância, que não se alimenta da vaidade de ser admirada, mas da satisfação íntima. Vestir-se era para ele outrora um prazer; o contato de um novo traje causava-lhe uma sensação deliciosa, como a de um banho frio em hora de calma. 

Nesse dia, porém, quando os guarda-roupas e cômodos regurgitavam, limitou-se ele apenas a reparar algum leve desarranjo; e dar ao traje da manhã uma feição de novidade pela mudança de uma gravata. Quando entrou na saleta de conversa, já ali estava D. 

Firmina, e Aurélia não se demorou. 

(continua...)

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