Por Camilo Castelo Branco (1882)
– Não denota nada – refutou o médico. – Faça de conta que é uma sonâmbula. E, como a sua demência é funcional e não orgânica, não há desorganizações físicas que a estorvem de ser mãe. O meu colega que lhe assistiu à última vertigem disse-me que, alguns minutos antes do ataque, ela, numa grande irritabilidade, lhe dissera que fugia para Vilalva, que queria ver o José Dias... O marido felizmente fora nessa ocasião prover-se de vinagre à despensa. Eu considero-a perdida, a menos que se lhe não dê uma pronta e completa diversão ao espírito, e nem assim se consegue senão temporariamente deserdar os desgraçados que tiveram mãe e avó como esta Marta. Eu assisti ao primeiro e ao último período de Genoveva. Repetiram-se as vertigens, veio a decadência gradual da razão, delírios, ideias confusas, concepção difícil, nevroses vesânicas e, por fim, suicidou-se já num estado de demência epiléptica, que os especialistas consideram a mais incurável. Este me parece o itinerário da Mana, e casála com o tio deixou de ser um acto imoral para ser um estúpido arranjo de fortuna por lado do pai e de luxúria por parte do marido. Esta pequena tinha de vir a isto, e há-de ir a demência, mesmo sem drama nem paixão. Tem o cérebro defeituoso assim como podia ter a espinha vertebral raquítica. Como se faz a perda da vista? Pela paralisia dos nervos ópticos; pois a perda da vista normal da alma é também a paralisia de uma porção de massa encefálica. Bem sei que isto embaraça um pouco os senhores teólogosmetafísicos, mas lá se avenham: a verdade é esta.
XVIII
Chegaram por este tempo, vindos das terras de Basto a Requião, os tão almejados missionários, interrompidos no seu estéril apostolado pela revolução de Maria da Fonte. Marta ouviu a notícia com alvoroço, e disse que queria seguir os sermões – que precisava de salvar a sua alma. O Feliciano viera um pouco estragado de Pernambuco a respeito de religião; mas respeitava as crenças alheias, e não contrariava as devoções da sobrinha. O padre Roque era de parecer que se não deixasse Marta entrar muito pela mística; aconselhava o marido que fosse viajar com a mulher, que a tirasse daquela terra, porque as suas enfermidades não podiam curá-las os sermões nem as hóstias. O egresso conhecia a farmácia do varatojano de Borba da Montanha, e sabia que a primeira receita de Frei João era exorcismá-la como demoníaca.
– Dão cabo dela, vocês verão, dão cabo dela – dizia o padre-mestre.
Eram quatro os missionários que assentaram o vestíbulo do paraíso em Requião.
O padre José da Fraga, ainda novo, bem composto e limpo nas suas vestes sacerdotais, grave e semblante inteligente. Tinha-se ordenado em Brancanes com o propósito de ir propagar o cristianismo na China; depois, interesses e rogos de família determinaram-no a ficar na pátria, sem abrir mão da vocação apostólica. Lera e percebera Raulica, Lacordaire, e imitava o segundo com bastante engenho. O padre Osório dizia-lhe que guardasse as suas pérolas para outro auditório menos suíno. E, de feito, as mulheres, quando de madrugada o viam no púlpito, aconchegavam-se umas das outras para comodamente tosquenejarem o seu sono da manhã; e os homens diziam que não o chamava Deus por aquele caminho – que não calhava p'r'á prédega.
O padre Cosme de Tagilde, robusto, de meia-idade, autor da Escala do Céu pelas Escarpas do Gólgota e da Via Seráfica para o Reino dos Querubins, era pregador de sentimento. Tinha sido furriel no exército realista, e ordenara-se para herdar uns bens de uma parenta beata que tinha horror à tropa. Lera as novelas do Prévost e Madama de Genlis, quando era furriel. Ficou-lhe dessas leituras uma linguagem amelaçada, com interjeições trágicas, e um jeito especial de tocar as mães com imagens ternas tiradas das coisas infantis. Por exemplo: E o teu filhinho, mulher, o filhinho que Deus te levou para a companhia dos anhos, quando lá do Céu te vê pecar, estende para ti os seus bracinhos, e diz: Mãe, ó mãe! não peques; mãe, não peques! pelas lágrimas que por mim choraste, não caias na tentação, porque, se te perdes, se te afundas no abismo eterno, não tornarás a ver o teu filhinho que te chama do Céu, mãe, ó mãe! E infantilizava o timbre da voz, inclinava a um lado a cabeça num langor menineiro, estendia os braços do púlpito abaixo com as mãos abertas, alongava os beiços no jeito da boquinha de criança, e muito mavioso, num trémulo de voz e braços: Mãe! ó mãe! E todas as que tinham perdido filhinhos desatavam num berreiro.
O padre Silvestre da Azenha, homem antigo, de uma porcaria de sotaina digna dos hagiológios, boa pessoa, incapaz de mentir voluntariamente, era forte na topografia do Inferno e nas genealogias, usos e costumes dos diversos diabos. Afirmava que a legião deles se dividia cm esquadras, capitaneadas por Lúcifer, príncipe da Luxúria, por Asmodeu, Satanás, Belzebu e outros, cada um com a pasta ministerial dos seus competentes vícios. Dava notícia de um caudilho de esquadra, chamado Beemote, cujo empenho era bestializar os fiéis – verdadeira superfluidade. – Leviatã capitaneava o esquadrão da Soberba; e o ministro e secretário de Estado encarregado da pasta da Avareza chamava-se Mamona. A ciência moderna matou este diabo, extraiu-lhe o óleo, e pô-lo ao serviço dos intestinos dos pecadores – óleo de Mamona. Explicava o padre às mulheres o que era a corja dos demónios íncubos. Contava casos de algumas que ficaram grávidas desses devassos, e dizia em latim que tais demónios fecundos podiam, mesmo contra a vontade da mulher, rem habere cum illa. E as mulheres, sem pôr mais na carta, farejavam o latim e murmuravam indignadas: – T'arrenego! Catixa! cruzes, canhoto! – e benziam-se, cuspinhando nos calcanhares umas das outras.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. A brasileira de Prazins. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1778 . Acesso em: 17 jun. 2026.