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#Crônicas#Literatura Brasileira

Vida Urbana

Por Lima Barreto (1921)

Era o barão uma espécie Zé Bezerra , porquanto, sendo dono de uma grande usina de açúcar, dominava uma grande superfície ao derredor dela, marcando preços e emprestando dinheiro a bons juros sobre as futuras safras dos canaviais.

Com uma fortuna imensa, ele afugentava os prováveis maridos de suas filhas que temiam fazer-lhe o sacramental pedido.

Um belo dia, porém, houve um mais ousado que se animou a faze-lo.

Foi o doutor X, promotor da localidade, formado recentemente e capaz de tudo.

O bacharelete vestiu-se com o melhor terno que tinha e foi até ao engenho do Barão de ***.

O barão, conquanto fosse muito orgulhoso de seu título e da sua fortuna, era delicado e atencioso.

Ouviu com toda a polidez a exposição do bacharel.

Dizia este:

– Animei-me a fazer-lhe este pedido, porquanto a minha situação social e a minha idade parecem mo permitir. O senhor barão, qualquer que seja a sua opinião, não se ofenderá com ele. Não é assim?

– Não há dúvida. Mas com qual das minhas filhas o senhor deseja casar-se?

– Com da . Irene.

O barão coçou as barbas e disse, após um instante:

– Não lhe posso conceder a mão de minha filha Irene.

– Porque, barão?

– Ela já é noiva do doutor Castrioto, deputado estadual.

O promotor pensou alguns minutos; o barão ficou suspenso, à espera da resposta do rapaz, até que este disse:

– Não faz mal. Caso-me com a outra.

– Qual?

– A segunda.

– A Inês?

– Sim. A Inês.

Careta, Rio, 27-12-1919.

A POLÍTICA DO DISTRITO

Desde que me aposentei, sigo a política do país com um carinho extraordinário; mas, de toda ela, a que mais me interessa é a do distrito, porquanto sou candidato a intendente municipal, no próximo pleito.

Não é possível que o Rio de Janeiro seja representado diretamente na pessoa de respeitáveis senhores que nasceram no Funchal ou em Alagoas.

O Rio precisa de uma representação própria, de pessoas que o conheçam e por ele se interessem.

Na Câmara, é uma lástima. Nenhum dos deputados pelo Rio de Janeiro, com poucas exceções o conhece. O senhor Paulo de Frontin, cujo clericalismo tanto me afasta dele, é uma das exceções, não só por sua competência e ilustração, como por ser um carioca da gema.

No Senado, é outra desgraça, tanto assim que tem para senador o senhor Otacílio Camará, moço de vários títulos de doutor, mas muito bom para ocupar a cátedra do senhor Vitorino Monteiro.

O Conselho Municipal é tudo o que o Rio de Janeiro tem de falso. Muito poucos nasceram no Rio e quase todos só conhecem o centro da cidade e o bairro em que vivem.

É preciso reagir contra esse estado de coisas. Urge que tomemos, nós cariocas legítimos ou honorários, uma providência.

Caire, o popular e estimado doutor Aristides do Méier e adjacências, parece ter se arrependido de rebocar carros vazios.

Segundo me disse o Ângelo Tavares, ele deixou o Centro Republicano e o vazio Areias que sempre foi trabalhado por uma máquina pneumática própria a extrair a inteligência.

Caire ficou excêntrico, afirmou o Ângelo; mas creio que não.

O bondoso doutor Caire agora é que está no centro, no centro do espírito, da honradez e da bondade.

Tudo isto vem a pêlo porque, com o poeta Carlos Magalhães , que é candidato por Copacabana, eu sou também a intendente por Todos os Santos.

Penso não haver absurdo algum nisso e espero os votos dos meus patrícios. Careta, Rio, 27-12-1919.

O PAI DA IDÉIA

Tendo irrompido na capital de certo país uma epidemia de moléstia terrível que matava milhares de pessoas por dia, a junta do governo se viu obrigada a fazer o serviço compulsório de coveiros e requisitar palácios para hospitais. Um médico modesto, mas sábio, passado o flagelo, saiu de sua modéstia e escreveu num jornal ou numa revista de pouca importância, um artigo simples, claro, sem arrebiques de péssima literatura pernóstica, sem fumaças de ciência e de clínica, lembrando a conveniência de se criarem mais hospitais públicos e situá-los em diversas zonas da cidade, para sempre poderem eles atender à população eficazmente, nas épocas normais e anormais.

Pouca gente leu o artigo do honesto facultativo, mas todos os seus colegas o fizeram, sem que, entretanto, nada dissessem logo.

Passa-se um mês, quando já todos estavam esquecidos das palavras do bom esculápio sem trombetas, bulha e matinada, quando apareceu no principal jornal da cidade um artigo desmedido, escrito com o bolor de vocábulos antigos, recheado de citações e exemplos de outras terras e termos híbridos do grego e do hebraico, repetindo as sugestões do velho prático que lembrara a criação de hospitais semeados pela capital do país.

Apesar do assunto ser o mesmo, sem discrepância alguma, o nome de quem aventou a idéia pela primeira vez, cujo nome era Mendonça, não foi citado.

(continua...)

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