Por Aluísio Azevedo (1884)
— E fazia-se muito dele, muito amigo da monarquia, muito pronto a defendêla. Se, em sua presença, alguém se animava a falar no suposto namoro de Filomena com o padrinho, Guterres respondia logo, fazendo voz de choro e cara de lamúria:
— Não, coitado! é uma injustiça! O pobre homem não pode se divertir um instante!... Ah! também vocês de tudo querem armar escândalo'.
O Borges é que não se conformava com a brincadeira, se bem que a mulher empregasse todos os meios para convencê-lo de que tais sobressaltos não tinham o menor fundamento.
Mas não era só por causa disso que ele se apoquentava — é que a despeito do esforço que fazia o infeliz para evitar as convivências ruidosas e resignar-se à maçadora companhia do Guterres, não conseguia fugir às constantes visitas de cerimônia, e a sua vida ia-se tornando cada vez mais cheia de etiquetas e mortificações.
— Já vejo que é mesmo sorte minha!... resmungava ele. — E eu que supunha vir encontrar aqui, neste inferno de intrigas, um momento de repouso!...
A presença do imperador, a sua conversa constrangedora, virgulada de gestos incompreensíveis, era de tudo o que mais o amofinava. Borges, por melhor vontade que empregasse, não podia entrar com as praxes estabelecidas da cortesania.
— Não nascera para aquilo!
Burguês completo, amigo sincero do povo, donde safra e onde crescera, livre por hábito e por princípio, conhecendo o governo apenas pelos seus impostos, pelas suas exigências, pelas suas opressões, era, sem nunca o ter dito, talvez até sem o saber, um inimigo natural do trono, um tipo perfeito do revolucionário moderno, um verdadeiro, um puro republicano.
Todavia, nunca se envolveu nem de leve com a política de seu país; nunca se declarou mais simpático a este ou àquele partido. Até aos quarenta anos cedera os seus votos ao primeiro amigo que o mendigasse, sempre indiferente aos atos do governo, aos negócios do estado, chegando até a evitá-los instintivamente, como uma mulher honesta evita por impulso natural o contato de certas pessoas.
Amava os homens pela pureza do caráter e não pela cor do partido ou pela posição social. Se a mulher não o tivesse obrigado a comprar um título, não seria ele de certo quem se havia de lembrar de semelhante patacoada.
Desde pequeno habituado ao trabalho livre, sem jamais precisar do governo, a quem sempre considerou um parasita importuno, educado por um pai da mesma forma trabalhador e independente, Borges nunca se lembrou de pôr a sua consciência em leilão, nunca precisou dobrar aquela grossa cabeça de plebeu às conveniências desta ou daquela idéia. Além disso, quando se viu sem recursos de vida e abandonado na mais dura miséria, tudo, nesse momento, lhe teria passado pelo cérebro, menos a lembrança de que possuía uma pátria, para a segurança da qual tinha ele contribuído, durante muitos anos, com o seu esforço e com a sua coragem.
De sorte que, lançado agora bruscamente, por um capricho da mulher, aos pés de um soberano, que, até ai, era para ele simplesmente um princípio, que a gente aceita, para não se dar ao trabalho de dizer a razão por que não aceita, atirado assim de improviso aos degraus de um trono, que nada de comum podia ter com ele, um trono de que ele nada podia esperar por motu próprio, o Borges sentiuse como esmagado por uma desgraça que o humilhava, sentia-se coagido, preso, inutilizado, e, cada vez mais, furioso de sua vida.
Entretanto, obedecia à fatalidade das circunstâncias que o arremessavam àquela posição falsa e constrangedora.
Ia tudo suportando, sem ânimo de reagir: fazia-se cortesão a pouco e pouco, habituava-se ao sorriso do Paço; acompanhava os outros na adulação e no servilismo; até que, de repente, sem esperar por isso, recebeu como um augusto favor ou talvez como recompensa do seu aviltamento, a nomeação de "superintendente dos trabalhos privados do Paço", com um bonito ordenado, casa, comida, roupa lavada e engomada.
A mulher atirou-se-lhe ao pescoço: — Bravo! bravo, meu amor! Principias maravilhosamente!
— Mas eu, em consciência, não devo aceitar este cargo... objetou o Borges muito atrapalhado. — Eu não entendo nada disto! Não sei o que é ser superintendente, não sei quais sejam as atribuições desse lugar! Não sei finalmente o que tenho de dar em troca do ordenado que me oferecem!
Feriu-se uma tremenda discussão entre os dois.
— Está bom, está bom! disse afinal a baronesa. — Acho que deves guardar essas discussões para quando estivermos em casa — neste hotel ouve-se tudo o que se diz um pouco mais alto!
Borges calou-se, mas, receoso de fazer algum disparate, saiu à procura do Guterres. — Precisava desabafar! Arre!
— Não dês com o pé na fortuna' disse-lhe o amigo. — Que diabo queres tu então, homem de Deus?!...
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.