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#Romances#Literatura Brasileira

Encarnação

Por José de Alencar (1878)

Sua alegria ainda era um esplendor sem crepúsculos.

Capítulo 4 

 

Era noite de partida em casa do Sr. Veiga. 

 

Amália ainda não tinha perdido a sua jovialidade, e continuava a ser uma das mais gentis princesas da moda. 

 

Nesse dia vestira-se mais cedo para ensaiar com uma amiga o dueto que tinham de cantar logo mais. Deixava ela o piano, quando entraram na sala ainda erma duas pessoas. 

 

Uma, o Sr. Borges, era íntimo da casa e aparentado com a família. A outra, que Amália não conhecia, foi-lhe apresentada em termos de anúncio: 

 

— O Dr. Henrique Teixeira, médico muito distinto, ultimamente chegado da Europa; urna notabilidade oftalmológica. 

 

Borges encontrara o companheiro no portão de Hermano: 

 

— Por aqui, doutor? 

 

— Vim jantar com um amigo, e estou à espera de meu tílburi, que mandei voltar às sete horas. Receio que o cocheiro me logre. 

 

—Ah! é amigo do Sr. Hermano? 

 

— Amigo de infância. 

 

Borges convidou o doutor para a partida do parente; e tais e tão repetidas foram as instâncias, que o outro acedeu por fim. 

 

Diversos motivos influíram para aquele convite reiterado. Além do desejo de obsequiar o médico e de arranjar mais um cavalheiro para a dança, Borges fora movido sobretudo pela curiosidade de saber particularidades acerca do excêntrico viúvo. 

 

Depois dos cumprimentos e de algumas ligeiras observações relativas à Europa, Borges dirigiu a conversa para o assunto que mais lhe interessava. 

 

— É verdade que o Hermano está sofrendo da cabeça, doutor? 

 

— Não é exato! acudiu Henrique Teixeira com vivacidade. Tem a razão tão firme e tão lúcida como nunca; e o senhor deve saber que ele mostrou sempre muito tino e bom senso. A prova é que deixando-lhe o pai a livre disposição de sua fortuna, quando não tinha mais de dezessete anos, não só a conservou, como soube aumentá-la, apesar de sua vida elegante. 

 

— Sei perfeitamente; mas tinham-me dito que ele não regula desde que ficou viúvo. 

 

— Com efeito, Carlos sofreu um abalo terrível com esse golpe. A morte de D. Julieta, que ele ainda não esqueceu, nem esquecerá, causou-!he uma espécie de paralisia moral. Durante dois meses não pronunciou uma palavra; vivia mecanicamente; era um autômato movido por um velho criado, o Abreu, cuja dedicação por ele é a de um pai extremoso. 

 

— Tenho visto este criado; se não me engano é quem governa a casa. 

 

— Estava eu resolvido a passar algum tempo em Paris para dedicar-me aos estudos de minha profissão. Apressei a partida para levar Carlos comigo e distraí-lo. Nem a viagem, nem o turbilhão da vida parisiense produziram o resultado que eu esperei. Continuava indiferente a tudo; nada o interessava; nada prendia-lhe a atenção. 

 

— Então, doutor, sempre houve alguma coisa? 

 

— Sem dúvida, mas não demência. O estado de Carlos era simplesmente uma insensibilidade moral: um desprendimento do mundo, que o tornava impassível ao movimento social. Vivia em si e de si, das recordações que enchiam sua alma. Nunca, porém, eu notei no seu espírito a menor vacilação, e muito menos um desvario. Quanto aos estranhos, viam nele um homem frio, concentrado, de poucas falas, mas de juízo seguro e talento refletido. 

 

— O senhor defende seu amigo com tanto calor que me faz desconfiar da justiça da causa, doutor, disse Amália a sorrir. 

 

— A crítica é espirituosa, minha senhora, e eu já a tinha lido em seus lábios antes que eles a proferissem. Mas eu quero a este amigo como a um irmão; e dói-me profundamente  essa suspeita de loucura, que alguns malévolos se incumbiram de espalhar. Felizmente Carlos restabeleceu-se; aquela impassibilidade que me assustava dissipou-se como por encanto. 

 

— Em Paris? perguntou Borges com ar de dúvida, apenas de leve dissimulado pela cortesia. 

 

(continua...)

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