Por Martins Pena (1845)
OLAIA, na porta, voltando-se – Malcriada será ela... (Vai-se.)
PAULINA – Hem?
CENA XII
EDUARDO, de hábito, trazendo a rabeca, e a dita.
EDUARDO – Paulina, que é de Olaia?
PAULINA – Lá vai para dentro choramingando, contar não sei o que à mãe.
EDUARDO – Paulina, minha irmã, este modo de viver que levamos já não me agrada.
PAULINA – Nem a mim.
EDUARDO – Nossa sogra é uma velha de todos os mil diabos. Leva desde pela manhã até à noite a gritar... O que me admira é que ainda não estourasse pelas goelas... Nosso sogro é um pacóvio, um banana, que não cuida senão em acompanhar procissões. Não lhe tirem a tocha da mão, que está satisfeitíssimo... Teu marido é um ga... ga... ga... ga... que quando fala faz-me arrelia, sangue pisado. E o diabo que o ature, agora que deu-lhe em falar cantando... Minha mulher tem aqueles olhos que parecem fonte perene... Por dá cá aquela palha, aí vêm as lágrimas aos punhos. E logo atrás: Vou contar à minha mãe... E no meio de toda esta matinada não tenho tempo de estudar um só instante que seja, tranqüilamente, a minha rabeca. E tu também fazes sofrivelmente teu pé de cantiga na algazarra desta casa.
PAULINA – E tu, não? Pois olha esta tua infernal rabeca!
EDUARDO – Infernal rabeca! Paulina, não fales mal da minha rabeca; senão perco-te o amor de irmão. Infernal! Sabes tu o que dizes? O rei dos instrumentos, infernal!
PAULINA, rindo – A rabeca deve ser rainha...
EDUARDO – Rei e rainha, tudo. Ah, desde a noite em que pela primeira vez ouvi no Teatro de S. Pedro de Alcântara os seus harmoniosos, fantásticos, salpicados e repinicados sons, senti-me outro. Conheci que tinha vindo ao mundo para artista rabequista. Comprei uma rabeca – esta que aqui vês. Disse-me o belchior que a vendeu, que foi de Paganini.
Estudei, estudei... Estudo, estudo...
PAULINA – E nós o pagamos.
EDUARDO – Oh, mas tenho feito progressos estupendíssimos! Já toco o Trêmolo de Bériot... Estou agora compondo um tremulório e tenho ainda em vista compor um tremendíssimo trêmolo.
PAULINA – O que aí vai!...
EDUARDO – Verás, hei de ser insigne! Viajarei por toda a Europa, África e Ásia; tocarei diante de todos os soberanos e figurões da época, e quando de lá voltar trarei este peito coberto de grã-cruzes, comendas, hábitos, etc., etc. Oh, por lá é que se recompensa o verdadeiro mérito... Aqui, julgam que fazem tudo pagando com dinheiro. Dinheiro! Quem faz caso de dinheiro?
PAULINA – Todos. E para ganhá-lo é que os artistas cá vêm.
EDUARDO – Paulina, o artista quando vem ao Brasil, digo, quando se digna vir ao Brasil, é por compaixão que tem do estado de embrutecimento em que vivemos, e não por um cálculo vil e interesseiro. Se lhe pagam, recebe, e faz muito bem; são princípios da arte...
PAULINA – E depois das algibeiras cheias, safa-se para as suas terras, e comendo o dinheiro que ganhara no Brasil, fala mal dele e de seus filhos.
EDUARDO – Também isso são princípios de arte...
PAULINA – Qual arte?
EDUARDO – A do padre Antônio Vieira... Sabes quem foi esse?
PAULINA – Não.
EDUARDO – Foi um grande mestre de rabeca... Mas aí, que estou a parolar contigo, deixando a trovoada engrossar. Minha mulher está lá dentro com a mãe, e os mexericos fervem... Não tarda muito que as veja em cima de mim. Só tu podes desviar a tempestade e dar-me tempo para acabar de compor o meu tremulório.
PAULINA – E como?
EDUARDO – Vai lá dentro e vê se persuade a minha mulher que não se queixe à mãe.
PAULINA – Minha cunhada não me ouve, e...
EDUARDO, empurrando-a – Ouvir-te-á, ouvir-te-á, ouvir-te-á. Anda, minha irmãzinha, faze-me este favor.
PAULINA – Vou fazer um sacrifício, e não...
EDUARDO, o mesmo – E eu te agradecerei. Vai, vai...
CENA XIII
EDUARDO, só – Muito bem! Agora que o meu parlamentário vai assinar o tratado de paz, assentemo-nos e estudemos um pouco. (Assentase.) O homem de verdadeiro talento não deve ser imitador; a imitação mata a originalidade e nessa é que está a transcendência e especialidade do
(continua...)
PENA, Martins. Quem casa, quer casa. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2156 . Acesso em: 30 jan. 2026