Por Martins Pena (1848)
TIBÚRCIO – Deus me favorece...
LUÍSA – O senhor Tibúrcio!
TIBÚRCIO – Ele mesmo, que morria longe de ti.
LUÍSA – Vá-se embora!
TIBÚRCIO – Cruel, que te fiz eu?
LUÍSA – Não fez nada, mas vá-se embora.
TIBÚRCIO – Há oito dias que te não vejo. Tenho tanto que te dizer... Oito dias e oito noites levei a passar pela tua porta, e tu não me aparecias; até que tomei a resolução de vestir esta opa para poder entrar aqui sem causar desconfiança. Seremos felizes; nossa sorte mudou. (Põe a bacia sobre a mesa.)
LUÍSA – Mudou?
TIBÚRCIO – Bem sabes que há muito tempo que ando atrás de um lugar de guarda da Alfândega, e que não tenho podido alcançar; mas agora já não preciso.
LUÍSA – Não precisa?
TIBÚRCIO – Comprei uma cautela de vigésimo, na “Casa da Fama”, do Largo de Santa Rita, e saiu-me um conto de réis.
LUÍSA – Ah!
TIBÚRCIO – Vou abrir um armarinho. Agora posso pedir-te a teu irmão.
LUÍSA – Não, não, não pode ser!
TIBÚRCIO – Não queres ser minha mulher? Terás mudado? Ingrata!
LUÍSA – Não posso, não posso! Meu Deus!
TIBÚRCIO – Ah, já sei, amas a outro. Pois bem; casa-te com ele. Quem o diria?
LUÍSA, chorando – Escuta-me...
TIBÚRCIO – Não tenho que escutar. Vou-me embora, vou-me meter em uma
das barcas de vapor da Praia Grande, até que ela arrebente... (Falsa saída.)
LUÍSA – Quanto sou infeliz!
TIBÚRCIO, voltando – Ainda me amas?
LUÍSA – Ainda.
TIBÚRCIO – Então porque não queres casar comigo?
LUÍSA – Oh, acredita-me, é que eu não devo...
TIBÚRCIO – Não deveis? Pois adeus, vou para o Rio Grande. (Falsa saída.)
LUÍSA – Isto é um tormento que eu sofro!
TIBÚRCIO, voltando – Então, queres que eu vá para o Rio Grande?
LUÍSA – Bem sabes quanto eu te amava, Tibúrcio; tenho disto te dado provas bastantes, e se...
TIBÚRCIO – Pois dá-me a única que te peço: casa-te comigo. Ah, não respondes? Adeus, vou para Montevidéu. (Sai pelo fundo.)
LUÍSA, só – Nasci para ser desgraçada! Eu seria tão feliz com ele; mas é pedreiro-livre... Foi bom que ele se fosse embora. Eu não poderia resistir...
TIBÚRCIO, aparecendo à porta – Então, queres que eu vá para Montevidéu?
LUÍSA – Meu Deus!
TIBÚRCIO, caminhando para frente – Antes que eu parta desta terra ingrata; antes que eu vá afrontar esses mares, um só favor te peço, em nome de nosso antigo amor. Dize-me, por que não queres casar comigo? Disseram-me que eu era aleijado, que tinha algum defeito oculto? Se foi isso, é mentira.
LUÍSA – Nada disso me disseram.
TIBÚRCIO – Então por que é?
LUÍSA – É porque... (Hesita.)
TIBÚRCIO – Acaba, dize...
LUÍSA – Porque és pedreiro-livre. (Benze-se.)
TIBÚRCIO – Ah, ah, ah! (Rindo-se às gargalhadas.)
LUÍSA – E ri-se?
TIBÚRCIO – Pois não me hei de rir? Meu amor, isto são caraminholas que te meteram na cabeça.
LUÍSA – Eu bem sei o que é. Falas com o diabo à meia-noite; matas as crianças para lhes beber o sangue; entregaste tua alma ao diabo; freqüentas as...
TIBÚRCIO, interrompendo-a – Ta, ta, ta! O que aí vai de asneiras! Não sejas pateta; não acredites nestas baboseiras.
LUÍSA – Baboseiras, sim!
TIBÚRCIO – Um pedreiro-livre, minha Luísa, é um homem como outro qualquer; nunca comeu crianças nem falou com o diabo à meia-noite.
LUÍSA – Visto isso, não é verdade o que te digo?
TIBÚRCIO – Qual! São carapetões que te meteram nos miolos para talvez te indisporem comigo. A maçonaria é uma instituição...
LUÍSA – Dá-me a sua palavra de honra que nunca falou com o diabo?
TIBÚRCIO – Juro-te que é sujeitinho com quem nunca me encontrei.
LUÍSA – Hoje ouviu missa?
TIBÚRCIO – Nem menos de três.
LUÍSA – Ah, que peso me tiraste do coração!
TIBÚRCIO – Consentes que eu fale a teu mano?
LUÍSA, vergonhosa – Não sei...
TIBÚRCIO, beijando-lhe a mão – Malditos tagarelas, que iam-me fazendo perder este torrão de açúcar! Minha Luísa, nós seremos muito felizes, e eu te...
MARIANA, dentro – Devagar, devagar, que não posso.
LUÍSA, assustada – É D. Mariana!
TIBÚRCIO – Vou-me embora!
LUÍSA – Não, não, que o podem encontrar no corredor! Minha cunhada o conhece... Esconda-se até que elas entrem, e depois saia!
TIBÚRCIO – Mas aonde?
LUÍSA – Neste armário. (Tibúrcio esconde-se no armário, deixando a bacia sobre a mesa.)
CENA XIII
Entra MARIANA, apoiada nos braços de EUFRÁSIA e de SOUSA.
MARIANA – Ai, quase morri... Tira-me esta mantilha. (Luísa tira-lhe a mantilha.) Ai! (Senta-se.) Muito obrigada, compadre.
SOUSA – Não há de que, comadre.
(continua...)
PENA, Martins. Os Irmãos das Almas. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2161 . Acesso em: 30 jan. 2026.