Por José de Alencar (1857)
Júlia (voltando-se) — Aonde?
Ernesto (rindo-se) — Ah! Perdão, prima, era a Sra.
Júlia — Obrigada pelo cumprimento! (Senta-se)
Ernesto — Ficou zangada comigo, Júlia?
— Não; zangada, por quê?
— Cuidei. (Uma pausa)
Júlia — À vista disto o primo não viu no Rio de Janeiro nada que lhe agradasse?
Ernesto — Nada absolutamente, não; vi alguma coisa, mas...
Júlia — Mas. . . Acabe!
Ernesto — O que me agrada é justamente o que não me persegue, o que me foge mesmo.
Júlia — Diga o que é?
Ernesto — Não posso... Não devo...
Júlia — Ora quer fazer mistério.
Ernesto — Pois bem; vai por sua conta; depois não se zangue. D. Mariana, faça que não ouve. São seus olhos, Júlia!
D. Mariana — Hein!...
Júlia (corando) — Ah! Ernesto! Quer zombar de mim?
Ernesto — Olhe que eu não sou cá do Rio de Janeiro.
Júlia — Não importa; mas é estudante.
Ernesto — Boa maneira de lembrar-me a minha humilde posição.
Júlia — Primo, não interprete mal as minhas palavras.
Ernesto — Oh! Não pense que desconfio, não! Sei que um estudante é um animal que não tem classificação social; pode ser tudo, mas ainda não é nada. É uma letra de câmbio que deve ser descontada pelo futuro, grande capitalista de sonhos e de esperanças. Ora as moças têm medo do futuro, que para elas quer dizer o cabelo branco, a ruga, o carmim, o pó de arroz, et caetera.
Júlia — Isto são as moças vaidosas que só vivem de frivolidades, e eu creio, meu primo, que o Sr. não deve fazer esta idéia de mim; ao contrário...
Braga (adianta-se entre os dois) — Minha Sra., os cortes de vestidos estão às ordens de V.Ex.a.
Ernesto (consigo) — Maldito caixeiro!
Júlia — Já vou.
Ernesto — Adeus, Júlia, lembranças a meu tio, D. Mariana...
Júlia — Venha cá, Ernesto, espere por papai.
Ernesto — Não posso; adeus. (Sai)
CENA XIV
Júlia, D. Mariana
Júlia — Não sei por que me interessa esse caráter original. Tenho-lhe amizade já, e apenas o vi há oito dias, e com esta a segunda vez.
D. Mariana — Ouviu o que ele disse?... Seus olhos...
Júlia — Qual, D. Mariana, não creia. Cumprimentos de moço... Parte amanhã!...
D. Mariana — Isto diz ele.
Júlia — Ora, deixe-me escolher os vestidos. Vamos!...
(Entram no interior da loja)
CENA XV
Filipe, D. Luísa
D. Luísa — O Sr. tenha a bondade de ler este papel.
Filipe — Vejamos. (Lê) A Sra. é viúva então?
D. Luísa — É verdade; perdi meu marido; estou na maior desgraça; nove filhinhos dos quais o maior não tem cinco anos.
Filipe — Nesse caso nasceram de três meses como os cordeiros. Nove filhos em cinco anos!
D. Luísa — São gêmeos, Sr.
Filipe — Ah! tem razão! Foi uma ninhadazinha de pintos.
D. Luísa — O Sr. está zombando de mim? Se não fosse a dor de ver os pobrezinhos nus, chorando de fome, coitadinhos, não me animaria a recorrer à esmola das pessoas caridosas.
Filipe — Fique certa que elas não deixarão de ampará-la nessa desgraça.
D. Luísa — E o Sr.... pouco mesmo...
Filipe — Eu, minha Sra., não posso ser insensível ao seu infortúnio; a Sra. está justamente no caso de ser feliz. Não há desgraça que sempre dure. Só a sorte grande a pode salvar.
D. Luísa — Que diz, senhor?
Filipe (tirando os bilhetes) — Um meio, um quarto, um vigésimo! Não perca esta ocasião; não rejeite a fortuna que a procura.
D. Luísa — Ora, senhor! Não se ria da desgraça do próximo.
Filipe — Eu rir-me da desgraça dos outros! Eu que vivo dela!
D. Luísa — Estou quase aproveitando os cinco mil-réis de há pouco.
Filipe — Vamos, resolva-se.
D. Luísa — Está bom! Sempre compro um quarto.
Filipe — Antes um meio.
D. Luísa — Não quero; há de ser um quarto.
Filipe — Aqui tem. (A meia voz) E pede esmolas!...
(Entra uma menina de realejo que pede a gorjeta com um pandeiro)
D. Luísa — Sai-te, vadia! A polícia não olha para estas coisas.
Filipe — É verdade; não sei para que servem as autoridades.
D. Luísa — Deixam as pessoas honestas serem perseguidas por esta súcia de mendigos...
Filipe — Que não têm profissão.
(Saem à direita; Júlia, D. Mariana e BRAGÁ entram do interior da loja)
CENA XVI
(continua...)
ALENCAR, José de. Verso e Reverso. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16680 . Acesso em: 28 jan. 2026.