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#Romances#Literatura Brasileira

O Gaúcho

Por José de Alencar (1870)

— Eu... disse a menina esticando a perna bem torneada, e arqueando o pezinho calçado com um sapato de marroquim azul. 

Suspensa um momento nessa figura de dança, enquanto percorria com olhar brejeiro os sujeitos da roda, acabou a frase descrevendo uma pirueta graciosa. 

— Eu não escolho nenhum! 

— Ora aí está! disse o Lucas soltando uma gargalhada. 

— Qual! Já está fazendo melúrias. 

— Meu noivo... Querem saber qual é? 

— Então sempre escolhe! 

— Ai que já estou me lambendo! 

— Quem é? 

— Olhe! 

No canto oposto do alpendre, estava o Manuel Canho, sentado no parapeito, com o cigarro na boca, e a vista divagando pelos campos que se estendiam além do córrego, às abas da cidade. Inteiramente alheio ao que passava junto, o gaúcho parecia de todo absorvido em suas cogitações. 

Esta expressão de recolho íntimo apagava certa aspereza de sua fisionomia. Visto assim de perfil, com a fronte descoberta, os cabelos que a brisa agitava, e o talhe desenhado pelo traje pitoresco do gaúcho, era sem dúvida um bonito rapaz. 

Foi a ele que se dirigiu Catita; e tocando-lhe no ombro, voltada para os outros, disse: 

— Este! 

— Não vale! exclamou o peão. 

Sentindo no ombro a mão da menina, o gaúcho voltou-se com um olhar interrogador. 

— É você que eu quero para meu noivo, disse-lhe Catita a sorrir. 

— Quando for viúva, então sim, serei seu noivo! respondeu o gaúcho em amargo tom de ironia. 

Afastou-se a menina com um espanto misturado de pesar. Da gente da roda, uns não viram no dito do gaúcho mais do que uma chufa, e riram; outros não lhe deram atenção. 

Catita, porém, tomou aquela estranha resposta de Canho como agouro; e teve nessa noite um sonho bem triste. 

 

IV 

O PADRINHO 

 

Soavam trindades na torre da matriz. 

Manuel Canho ergueu-se e esperou de cabeça descoberta pela última badalada; depois do que, saiu na volta da Rua das Palmas onde morava o coronel. 

Estavam à porta o cabo de ordens e uma récua de camaradas paisanos ao serviço do coronel. Não havia então na campanha do sul homem ou estancieiro importante que não se acompanhasse de um bando de gaúchos. O número desses camaradas, que lembram os acostados da Idade Média, indicava o grau de preponderância e riqueza do patrão. 

Voltara Bento Gonçalves do quartel, e enquanto serviam a ceia, foi ter na sala com seu prisioneiro, D. Juan Lavalleja. 

O caudilho dava sinais bem visíveis de mau-humor, no cenho carrancudo e na impaciência com que trincava a ponta do cigarro de palha. Por momentos arrependia-se do que tinha feito, e lamentava não ter morrido combatendo contra Frutuoso Rivera ou Bento Gonçalves, antes do que sujeitar-se à humilhação de render as armas. E a quem? A brasileiros. 

Não obstante, no meio desta apoquentação, lá surdia no ânimo do ambicioso caudilho uma idéia, que ele ruminava com a mesma pertinácia do dente a morder a palha do cigarro. 

Com a entrada de Bento Gonçalves, a sofreguidão de Lavalleja aumentou. Correspondendo apenas com um gesto seco à saudação do hóspede, ergueu-se e começou a percorrer a varanda de uma a outra ponta, em passo de carga. Pelo que lembrou-se o coronel de assobiar o toque de avançar a marche e marche. 

Ou porque o gracejo do hóspede o excitasse, ou porque era chegado o momento da explosão, Lavalleja veio como uma bomba parar em face do coronel, e exclamou com uma voz taurina, atirando aos ares um murro furioso: 

— Coronel, o senhor não é um homem! 

Como aquela palavra abalou Bento Gonçalves, que achou-se em pé de repente, afrontando em face o oriental! Mas não passou de um primeiro assomo; a alta estatura que a indignação erigira perdeu a rijeza ameaçadora; no rosto anuviado perpassou o sorriso plácido e sereno das grandes almas, que uma cólera pequena não conturba. São essas almas como o grande oceano; qualquer borrasca não o agita; para subvertê-lo é preciso o tufão dos Andes. 

— O senhor é meu prisioneiro e hóspede desta casa, general, disse Bento Gonçalves sentando-se com a maior calma. Em outro momento e outro lugar, eu lhe mostraria que um brasileiro não vale um, mas dez homens; enquanto que são precisos dois castelhanos para fazer meio brasileiro. O senhor deve saber disto. 

— Outro tanto lhe podia eu retorquir; mas não estou agora para bravatas. Digo e repito que não é um homem, Sr. Bento Gonçalves, pois se o fosse, seria o primeiro de todo este Rio Grande. Em vez de coronel se faria general. Que vale o comando desta fronteira para quem pode, estendendo a mão, apanhar a presidência da província? 

(continua...)

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