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#Romances#Literatura Portuguesa

A brasileira de Prazins

Por Camilo Castelo Branco (1882)

– Home, o caso mudou muito de figura. Então você pelos modos ainda não sabe que vem aí o meu irmão de Pernambuco comprar quintas e conventos?

E começou a desenrolar o nastro gorduroso de uma carteira de couro em que tinha recibos da décima, um aviso da junta da paróquia para pagar a côngrua, uma conta de azeviche contra maus-olhados, uma oração manuscrita contra as maleitas, um oficio antigo que o nomeava regedor, de que fora demitido pelos Cabrais, uma velha ressalva de recrutamento, uns versos que ele recitara no Natal, num Auto do Nascimento do Menino, onde ele fazia de rei mago, e finalmente o livrinho de Santa Bárbara, muito sebáceo, com um lustre azulado de graxa e a carta do Feliciano tão suja que parecia ter estado em infusão de pingue.

– Você ainda não ouviu falar desta carta!? – perguntou com sobrançaria impertinente, dando saliva aos dedos para a desdobrar. – Não se fala noutra coisa. Toda a gente sabe que vem aí do Brasil o meu Feliciano para comprar quintas.

– Já me constou – disse o pedreiro –, mas você rói a corda à conta disso, acho eu. – E como o lavrador hesitasse: – O negócio da rapariga está feito ou não está feito? Os homens conhecem-se pela palavra e os bois pelos cornos. Ponha para aí o que tem no interior.

O Simeão mascava, torcia-se, metia com dois dedos a carta estafada na carteira e resmungava:

– Você, enfim, isto é um modo de falar, como o outro que diz; você bem entende que... sim...

– O que eu entendo fisicamente falando é que você não me dá a rapariga.

– Deixe ver, deixe ver o que diz o meu irmão – tartamudeava.

– Sabe você que mais? – volveu iracundo o arquitecto, dando com o olho do machado num canhoto. – Você é de má casta. Não tem palavra nem vergonha nessa cara estanhada. Você é da geração dos Travessas da Serra Negra, e basta... Não lhe digo mais nada... – Alusão pungente a um tio do Simeão, o Barnabé, capitão das maltas de salteadores que infestaram em 1835 aquela serra.

– Veja lá como fala... – interrompeu o lavrador ferido na sua linhagem. – Você não me deite a perder...

E o outro, num ímpeto de consciência robusta:

– Você é um safado. É o que lhe eu digo. Não guarda palavra em contrato que faça. Eu já devia conhecê-lo. Faz para as matanças seis anos que você ajustou comigo uma porca por quatro moedas e foi depois vendê-la ao António do Eido por mais um quartinho. Lembra-se, seu alma de cântaro? – E numa irritação crescente: – Se você não fosse um velho, dava-lhe com este machado na caveira. – E muito esbandalhado nos gestos, com sarcasmo: – Guarde a filha que eu hei-de achar mulher muito melhor que ela pelo preço, ouviu você? que leve o Diabo a burra e mais quem a tange, como o outro que diz. Livrei-me de boa espiga. De você não pode sair coisa boa; e mais da mãe que ela teve, que já lá está a dar contas...

E o lavrador com extremada prudência e na pacatez de um grande espírito de ordem e paz:

– Você não tem que desfazer na minha filha, ouviu?

– Ouvi, que não sou mouco. Ainda ontem a topei na bouça do Reguengo de palestra com o estudante de Vilalva. Espere-lhe a volta. A songuinha, que não olha direito p'ra um home, que anda ali esmadrigada de cabeça ao lado, lá estava de mão na ilharga a dar treta ao estudante, aquele pau de encher tripas, que há-de ser mesmo um padre daquela casta! Olhe se ele lha quer para casar... Pois não quiseste? – e arregaçava a pálpebra do olho esquerdo, mostrando o interior inflamado com uns pontos amarelos, purulentos, indicativos de insuficiente lavagem, um trejeito de garotice. E continuava: – Quem lhe dera dois pontapés, nele e mais nela! – e muito rubro de cólera dava pancadaria nas pedras, nas raízes nodosas dos castanheiros, e metia grande terror no ânimo do Simeão quando faiscava lume nos calhaus com a percussão do machado.

Esta situação prometia acabar pela fuga prudente do pai de Marta, se o estudante de Vilalva não assomasse ao fundo do castanhal com uma matilha de coelheiros que ladravam a um porco muito eriçado, que os esperava com o focinho de esguelha, bufando e grunhindo. O caçador chamava os cães, assobiava, fazia uma bulha convencional para que a Marta o ouvisse.

Ele não tinha visto o pedreiro; os cães é que o viram e deixaram o porco destemido para atacarem o homem, com uma velha birra que lhe tinham. O Zeferino, noutra ocasião, segundo o seu costume, desprezaria a arremetida da matilha; mas, naquela conjuntura de ódio ao caçador, esperou a canzoada com o machado em riste, empunhava o cabo com as mãos cabeludas, e fazia, com o corpo inclinado, avanços provocadores. José Dias chamava os cães obedientes; mas o Zeferino, muito azedo, engelhando na cara uns trejeitos de bazófia, dizia sarcástico:

– Deixe-os vir, deixe-os vir, que o primeiro que chegar faço-lhe saltar os miolos à cara de você.

(continua...)

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