Por Machado de Assis (1864)
Adivinha-se o resto. Entre a paixão do jogo, dominante em Silvério, e os olhares instantes de Sara, viu Eduardo correr as horas sem arredar pé. O jogo deu-se por terminado à meia-noite. Apenas tinham jogado duas partidas, em que Silvério ganhou sempre. Isto, porque ele não estava apaixonado, e Eduardo, se não o estava, acreditava estar, o que não deixa de produzir algum efeito, como a moléstia imaginária fazia Órgon conservar-se na cama.
Silvério apertou afetuosamente a mão de Eduardo, prometendo-lhe ficar pronto para dar lhe a desforra.
À despedida, Sara, em quem já dominava mais o amor que a ingenuidade infantil, colheu no jardim uma flor das roseiras, ao pé das quais tivera a conversa com Eduardo, e ofereceu-a.
Eduardo aceitou, sorrindo a um remoque paternal do velho Almeida, que ainda não calculava o estado do coração de sua filha.
Mas como fosse saindo sem nada dizer, Sara fê-lo parar, e disse-lhe em voz alta, visto não poder ser de outro modo:
— Eu cuidava que me devia retribuir a dádiva com outra... com essa flor que traz aí no peito.
Eduardo olhou a casa do paletó, viu a rosa que lhe fora dada por Maria Luísa. Tirou a flor e deu-lha.
Depois saiu.
Na rua ocorreu-lhe a lembrança que tinha prometido ir tomar chá com Maria Luísa. Lembrara-se dela algumas vezes em casa de Almeida, mas a promessa do chá varrera se-lhe inteiramente da memória.
V
Nas cenas que até aqui tenho esboçado, tentei mostrar a leviandade e a vaidade de um
homem que fazia jogo com as paixões e os sentimentos ingênuos de duas criaturas. Não há inverossimilhança nos fatos, todos concordarão, mas também não há inverossimilhança nos sentimentos de Eduardo, atendendo-se a que era um espírito para o qual nada havia fora do culto da própria personalidade.
Acreditando-se sinceramente apaixonado e não podendo distinguir a natureza do amor e a natureza dos desejos, Eduardo servia de algum modo aquele culto, armava à incredulidade; mas o assombro da novidade, os comentários, a fé que começaria a entrar nos espíritos e que se robusteceria quando ele pudesse passar do estado de solteiro para o de casado, tudo isto eram os aguilhões com o que o seu amor-próprio se sentia brioso e compelido a prosseguir na conquista.
Sara veio complicar as coisas no que dizia respeito ao casamento de Eduardo; e por esse lado afastou-o do alvo a que pretendia chegar; mas se o afastou, não foi senão para dar lugar a nova e maior extravagância, essa do amor por duas mulheres, a donzela e a viúva, na mesma intensidade e no mesmo grau.
Perguntará o leitor como é que um homem de tão bom senso como Pedro Elói parecia tão amigo de Eduardo. A resposta está contida nas duas cartas que eu já li. Pedro Elói, com um olhar de filósofo, via que não era impossível trazer Eduardo ao bom caminho. Os defeitos morais podem levar a conseqüências grandes, mas com a austeridade da lição e da prática são suscetíveis de desaparecer e tornar-se melhor o espírito em que eles existem. Pedro Elói tentava isto de longa data; e, como vemos, era um santo e um filósofo. Tinha conseguido tudo quanto desejara? A este respeito o procedimento de Eduardo desmente a submissão afetada da carta. Que alguma coisa tivesse feito, acredita-se, mas não fez tudo, nem muito. Vejamos agora como continuaram os dois episódios amorosos que Eduardo entretinha com tanto cuidado.
Em casa de Maria Luísa, no dia seguinte, foi Eduardo mal recebido. A viúva mostrava uma frieza e uma indiferença que não eram mais do que os véus com que se cobriam o despeito contido e a dor sufocada.
A promessa não cumprida ligava-se a outras faltas de Eduardo, e para um coração amante, sobretudo para um coração como o de Maria Luísa, não eram essas faltas facilmente desculpáveis.
Maria Luísa sentia naquilo um desdém, um sintoma de resfriamento do amor, e pressentia não sei que más novas para o futuro.
Eduardo explicou-se como pôde. Alegou a doença de um amigo, acrescentando que pouco lhe importaria perder o amigo por amor dela, mas que, instado por dois outros em tom imperativo, tivera de ceder-lhes.
Maria Luísa acreditou ou fingiu acreditar na desculpa. De um ou outro modo, é certo que ainda derramou algumas lágrimas. Não sei que haja alguém que possa resistir às lágrimas de uma mulher. Falo das lágrimas sinceras. É o que há mais poderoso para desarmar a cólera eu comover o egoísmo. É como que um protesto de fraqueza; e resistir-lhe não é de alma nobre, nem de consciência elevada.
As lágrimas tiveram efeito, mas um efeito excepcional; faltavam a Eduardo as qualidades delicadas para apreciar o valor de um lágrima sincera. Era o amor-próprio que se comprazia em ver chorar aqueles olhos e comover-se aquela alma. Seguiram-se protestos descarados, velhos respeitos, sem sentimento nem valor.
Dizia Maria Luísa, enxugando os olhos:
— Vejo que me não ama; vejo que me não compreende.. Ah! se me compreendesse e amasse...
A isto respondeu Eduardo:
— O quê?... Não a amo? Eu?! Não diga isso! mais que a vida... etc.
O leitor conhece o resto.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Questão de vaidade. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1864.