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#Crônicas#Literatura Brasileira

Vida Urbana

Por Lima Barreto (1921)

A impressão que tenho é de que a vida e a propriedade daquelas paragens estão entregues aos bons sentimentos dos outros e que os pequenos furtos de galinhas e coradouros não exigem um aparelho custoso de patrulhas e apitos.

Aquilo lá vai muito bem, todos se entendem livremente e o Estado não precisa intervir corretivamente para fazer respeitar a propriedade alheia.

Penso mesmo que, se as coisas não se passassem assim, os vigilantes, obrigados a mostrar serviço, procurariam meios e modos de efetuar detenções e os notívagos, como eu, ou os pobres-diabos que lá procuram dormida, seriam incomodados, com pouco proveito para a lei e para o Estado.

Os policiais suburbanos têm toda a razão. Devem continuar a dormir. Eles, aos poucos, graças ao calejamento do ofício, se convenceram de que a polícia é inútil.

Ainda bem.

Correio da Noite, Rio, 28-12-1914.

A MÚSICA

Pouco entendo de semelhante arte, mas quero mostrar uma pequena observação que venho fazendo de há muito.

Os jornais... Eu gosto dos jornais para justificar as minhas observações. Os jornais, dizia, desmancham-se em elogios, em retratos, em gabos, por ocasião de um concerto ou, pelo fim do ano, quando se realizam os exames do Instituto de Música, a tais ou quais cantoras, pianistas, violinistas, harpistas, pistonistas, flautistas, etc.

Eu leio os elogios e fico convencido de que a arte musical vai num progresso doido entre nós.

E a manifestação estética que mais revelações apresenta é aquela que mais se afirma entre nós.

Porque, em se tratando de pintores, que aparecem com seus quadros, em exposições públicas, não são os elogios assim, tão constantes e seguidos.

Mesmo no que toca às letras, os quotidianos são sempre parcos em gabos e clichés de imortalidade.

Porque, então, o são tanto para a música?

É difícil de explicar, tanto mais que a criação musical, as obras, não aparece.

Não se diga que tal coisa sempre se deu.

As crônicas registram obras de alguns homens notáveis e as poucas que hoje aparecem são de homens.

A música está atualmente, entre nós, entregue às moças; ficou sendo um atavio, um adorno mundano e vai perdendo aos poucos o que possa haver nela de profundo e importante para o nosso destino.

As mulheres são extraordinariamente aptas para essas coisas de reprodução, de execução, de exames, de concursos; mas quando se trata de criação, de invenção, de ousadia intelectual, fraqueiam.

Um autor, Abel France, num estudo, O indivíduo e os diplomas, explanou muito bem essa capacidade das mulheres e mostrou que a continuar esse nosso sistema chinês de exames e concursos, combinando com a emancipação feminina, todos os cargos ficariam nas mãos das mulheres e o progresso intelectual estagiaria.

Sei bem que há exceção, mas todas elas estão fora da música.

Os grandes músicos têm sido sempre homens e se não temos músicos equivalentes aos escritores e pintores que possuímos, é porque de uns tempos a esta parte a música ficou sendo, entre nós, arte de moças que querem casar, ou de outras que querem ganhar muito dinheiro ensinando aqui e ali.

Correia da Noite, Rio, 30-12-1914.

A PROPÓSITO

Continuam a proliferar as chamadas “revistas de ano” e continuam também a ser aclamadas e gabadas em todos os tons.

Se elas são procuradas, se os teatros que as representam se enchem, é porque o povo as aprecia.

Não há razão, portanto, para essa grita, essas reclamações, essas petições lamurientas com que andam os nossos atores a pedir aos poderes públicos que lhes venham em auxílio.

O problema está remediado, não é preciso intervenção do Estado, municipal ou federal, para salvá-los, para protegê-los. Tudo está em fabricar “revistas” e representálas, para que os teatros se encham, os atores ganhem dinheiro e as atrizes façam vibrar as platéias.

O governo não precisa meter-se no caso e a resolução do problema está entregue a iniciativa particular.

De resto, não me parece curial que o Estado vá subvencionar um teatro que só é capaz de produzir, de representar e de atrair o público quando põe em cena revistas.

O povo não quer outro gênero, o povo não gosta de outra coisa, pois que o povo goze, se emocione com seu gênero predileto.

O governo não tem mais nada que se intrometer; e é entregar o teatro com o povo, com os atores e os famosos autores de revistas às pernadas e couplets “do preto no branco”.

O mais é malhar em ferro frio, não se obtendo coisa alguma.

O teatro com pretensões artísticas definitivamente morreu entre nós, a menos que queiramos esperar pela lenta evolução para refinamento das peças do Circo Spinelli.

Insistir em esperar que a ação do governo mude de orientação o gosto da multidão, é uma ingenuidade de pasmar.

(continua...)

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