Por Aluísio Azevedo (1884)
Recebi a sua estimável cartinha, na qual declara V. Sª. os justos motivos pelos quais não deu publicidade às últimas comunicações que lhe fiz, reservando-as para mais tarde, visto que não seria de bom aviso expô-las tão precipitadamente.
Verdade é que tais revelações tanto podiam aparecer agora, como mais tarde, encarando-as pelo lado do interesse que elas tenham porventura nesta questão.
Entretanto vou prosseguir, tomando o fio das revelações justamente no ponto em que as deixamos.
Quando saí da casa de Jeannite, isto é, dous dias e meio depois de ter entrado, já o meu homem, segundo o que dissera aquela, devia estar recolhido à Casa de Detenção.
A Francesa deu-me uma fotografia dele, um retrato que o tratante havia três meses antes tirado em casa do Emilio Rouede, quando esse pintor de marinhas ainda se dava a trabalhos fotográficos.
Esse retrato estava em tudo de acordo com as informações que eu conseguira apanhar a respeito do Castro Matta.
Senhor de mais esse belo auxílio, dirigi-me para a Casa de Correção, onde felizmente tenho nada menos do que três amigos; pedi-lhes notícias do Matta e um deles me respondeu que o meu homem havia seguido na véspera para a Santa Casa de
Misericórdia.
- Para a Santa Casa? —perguntei surpreso.
- Sim - disse-me o amigo. — Foi tratar-se de uma congestão hepática.
- Mas, como assim? — tornei a perguntar. — Ele parecia vender saúde e, segundo o que acabou de dizer aquele senhor (apontei para um outro dos amigos), o homem foi preso por ter sido pilhado a fazer desordens na Praça da Constituição.
- Esse ponto agora é que eu não lhe posso esclarecer - volveu o meu informante. — Apenas lhe digo que o Castro Matta não é lá grande coisa debaixo do ponto de vista da seriedade e da boa conduta.
O meu amigo e informante gostava em extremo de armar a frase com uma certa pompa de linguagem; sinto até não poder reproduzi-las mais fielmente, porque algumas delas são bem boas.
Mas não é disso que se trata agora, e não podemos perder tempo com similhante coisa.
- Então o sujeito, o tal Matta, é homem de maus costumes, hein? — perguntei ao amigo.
- Chi! — fez ele - nem lhe digo nada! Sem ir muito longe, ainda na véspera da desordem que ele fez na Praça da Constituição, foi visto a passear em Niterói com uma sujeita da vida airada, uma sujeitinha vestida de preto e com um grande chapéu de palha, que lhe escondia quase todo o rosto.
Imagine, Sr. Redator, a impressão que estas palavras me causaram, a mim que reconheci naquele vestido preto e naquele chapéu de palha a mulher a quem para sempre havia ligado meu nome e meu futuro.
Mal sabia eu quando te comprava na Notre Dame, pobre chapéu de palha!, que terias ocasião de entrar tão diretamente nas minhas dores e nos meus sobressaltos de marido atraiçoado!
Desconsolado, aflito e naturalmente com uma cara d’asno, ia a deixar a Detenção para tomar o caminho da Santa Casa da Misericórdia, quando um dos meus três amigos chamou-me de parte e disse-me:
- Tu me mereces toda a confiança e vou falar-te com franqueza. O Malta...
- Malta ou Matta?
- O Malta — sustentou ele -, o Castro Malta.
- Mas não é o Malta que eu procuro, é o Matta.
- É tudo uma e a mesma cousa. Digo-te mais: o sujeito não é só Matta e Malta, é também Mattos. - Hein?
- É o que te digo. O velhaco usa e abusa desses três apelidos, conforme a situação econforme o plano de suas velhacadas. É Malta quando quer comprar a crédito qualquer cousa; é Mattos quando se mete em desordens e arruaças e só é Matta nas aventuras amorosas.
- Então é o mesmo — disse eu. — É justamente por causa de uma questão amorosa que eu ando em busca do tratante.
- Aposto que se trata da Jeannite!
- Da Jeannite? Uma Francesa, de cabelos loiros?
- Isso! É a amante dele.
- Dele quem?
- Do Matta, Malta ou Mattos.
- Que me dizes, homem?
- Pois não. Olha, vou mostrar-te uma carta que ainda hoje ela me escreveu.
E o meu amigo, tirando do bolso uma folha de papel, marca pequena, leu pouco mais ou menos o seguinte, entre outras cousas, as quais não prestei a mesma atenção.
“Aquele miserável pagou-me tudo, vinguei-me dele (o miserável era o Matta); logo que tive as provas da sua traição, procurei o marido da mulher com quem ele me traía, obriguei-o a vir a minha casa, prendi-o, fingi-me apaixonada por ele e vinguei-me durante sessenta horas.”
Eu soltei um suspiro; — que me estaria ainda reservado?!
O amigo, depois de guardar a carta, acrescentou:
- Foi ela, a Jeannite quem arranjou a prisão do maroto...
- Pois a Jeannite tem essa influência na Polícia?
- Então não sabes do que há, homem de Deus?
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Mattos, Malta ou Matta? Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1725 . Acesso em: 15 mar. 2026.