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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

— Deixemo-nos de meias medidas, meu caro senhor; já lhe disse o que tinha a dizer; agora só me resta acrescentar que, nas condições apresentadas, estou pronto a acompanhá-lo; noutras, não! Lembre-se, porém, de que, sem o meu concurso, lhe será muito difícil chegar a qualquer resultado prático a respeito da herança de seu pai!...

— Mas, Sr. conde, objetou Gregório; se eu fizer o que V. Exa. me aconselha, fico absolutamente sem recursos: abandono meu emprego, abandono tudo!

— E que falta lhe podem fazer essas coisas? E o conde, depois de uma pausa, disse com a mais resoluta calma: Enfim, senhor, eu sigo amanhã no paquete que parte para a Europa, quer ou não quer acompanhar-me?!

— Bem! respondeu Gregório, inspirado pelo ar resoluto do conde. Estou às suas ordens!

— Neste caso, vou apresentá-lo à minha família, que irá também.

O rapaz consertou rapidamente o laço da gravata, passou a mão pelos cabelos, e, pouco depois, em companhia do conde, era anunciado nos aposentos da condessa.

Ao chegar à porta sentiu logo um doce perfume de paz honesta. Tudo ali era castamente tranqüilo; havia na atmosfera o aroma grave de flores secas, esquecidas no fundo de uma velha gaveta de família. Os móveis, o tapete, os quadros e as cortinas revelavam a mesma sobriedade de gosto, o mesmo recato de simpatias, as mesmas inclinações finas e aristocráticas.

Não se encontravam ali as fantasias baratas do luxo moderno; não havia as fragilidades douradas da falsa opulência; tudo era bom e sincero. O biscuit não substituía o mármore, o gesso pintado não tomava o lugar do bronze e o cromo litográfico não fazia as vezes da aquarela e da pintura a óleo. Cada objeto dizia sinceramente a sua espécie e a sua qualidade.

Predominava em tudo a mesma singeleza bem educada. Nada de arrebiques, nada de frisos de pinho envernizado, nada de guarnições impertinentes. As boas gravuras inglesas e as magníficas águas-fortes destacavam-se perfeitamente da nudez austera das paredes. Os móveis de madeira sem lustro tinham cada um a sua utilidade imediata. Não havia os preguiçosos divãs que conduzem à volúpia e ao dolce far niente; não havia as dúbias cadeiras que obrigam o corpo a uma posição enervante e sem-cerimônia.

Gregório transpôs a porta daquele santuário, inteiramente penetrado pela alma misteriosa que daí se evaporava, como o perfume religioso de um templo.

A condessa, assentada junto à mesa, lia um grosso volume de capa azul à luz vermelha de um candeeiro de alabastro. Vestia uma roupa inteira e afogada de casimira indiana, e tinha a cabeça resguardada por uma touca de renda de Valença. Não se lhe via luzir uma jóia. Ao lado dela, em urna cadeira mais baixa, bordava a filha, toda preocupada com o leu trabalho.

Maria Luísa, é este o nome da menina, teria dezessete anos, não travessos e ruidosos, mas angélicos e tranqüilos, como tudo o que a cercava. À luz do candeeiro destacava-se bem a sua cabecinha loura, redonda, encimada pelas tranças, que a envolviam à moda das velhas estátuas. Sentia-se o azul dos seus olhos por debaixo das pálpebras abaixadas sobre o trabalho.

Não houve o menor alvoroço com a entrada de Gregório. A condessa marcou com uma fita a página que lia, e pousou devagar o livro sobre a mesa; depois estendeu a mão para o moço e, com um sorriso muito amável, ofereceu-lhe um lugar perto de si, enquanto o conde o apresentava às duas senhoras.

— Minha mulher e minha filha, disse o velho, indicando as duas.

Gregório cumprimentou-as, possuído de um forte sentimento de respeito, e foi sentar-se ao lado da condessa.

— Até que afinal o temos conosco, disse ela, descansadamente. E, voltando-se mais para ele, acrescentou, fazendo um ar sério: Fui muito amiga de sua mãe! Era uma excelente pessoa; entre outros obséquios, devo-lhe a vida!

— O Sr. conde já teve a bondade de contar-me isso mesmo, sustentou Gregório um pouco perturbado.

— Sim, volveu a condessa, eu própria lhe havia recomendado que o fizesse.

E depois de dar a entender à filha que se retirasse:

— Não temos tempo a perder. O conde naturalmente já lhe falou sobre a herança de seu pai, não é verdade?

— Sim, minha senhora.

— E está disposto a partir?

— Amanhã mesmo.

— Bem, neste caso darei daqui a pouco as providências para a viagem; por enquanto falemos do senhor...

CAPÍTULO III

POLICIA E CÓCEGAS

Justamente no dia do malogrado casamento de Gregório, o Dr. Ludgero, então chefe de polícia da Corte, acabava de entrar na casa de sua residência à rua da Ajuda, quando o ordenança lhe entregou, por mandado do ativo delegado Benevides, a parte de um grande crime, que nessa mesma tarde se havia cometido nos armazéns ~e rapé do popular fabricante Paulo Cordeiro.

Ludgero levantou-se incontinenti da mesa, tomou apressado o chapéu e a bengala, meteu-se no carro e disse ao cocheiro que tocasse para a ladeira da Conceição.

(continua...)

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