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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

Estava preocupado; não mais com as cartas da família, mas com a deliciosa intenção de reatar no dia seguinte o namoro de Hortênsia. Só uma pequena circunstância lhe mareava o antegozo desses sonhados momento s de ventura: era a idéia dos seus compromissos como estudante; sentia-os agravados perante a confiança que lhe depositavam, e agora, mais que nunca, a consciência do seu relaxamento, a lembrança da haver faltado às aulas tantas vezes e de não ter aberto livro durante a última semana, agonizavam-no desabridamente.

— Oh! Os estudos! Os estudos eram o ponto negro de sua vida, o seu desgosto, o terrível espectro de todos os seus sonhos! As regalias que daí viessem mais tarde, fossem elas quais fossem, nunca poderiam compensar aquela profunda tristeza, aquele aborrecimento invencível, que o devoravam.

Semelhante preocupação tirava-lhe o gosto para tudo, azedava-lhe todos os melhores instantes de sua vida. Cada minuto, que se escoava na ociosidade, era mais uma gota de remorso caída no sombrio pélago de seu tédio.

E, contudo, os minutos, os dias e as semanas iam escapando, sem que Amâncio lograsse vencer a sua antipatia pelo trabalho.

Olhava com repugnância para os melancólicos compêndios da faculdade, e, quando teimavam muito em os conservar abertos defronte dos olhos, quase sempre adormecia.

Um verdadeiro tormento!

* * *

Amâncio obteve de João Coqueiro que o acompanhasse à soirée do Campos.

Foi uma noite cheia para ambos; se bem que Hortênsia ,de tão preocupada com os arranjos da casa, muito pouco se dera às visitas.

Carlotinha, sim, mostrava-se alegre e comunicativa que nem parecia a mesma. Chegou-se muito para Amâncio, meteu-se com ele de palestra,, a fazer pilhéria, a criticar das outras senhoras, com visagens disfarçadas e pequeninos risos estalados por detrás do leque.

O estudante ficou pasmo, quando descobriu que toda essa intimidade procedia do namoro dele com Hortênsia. À primeira indireta da rapariga, o rapaz corou e respondeu titubeando. Carlotinha, porém, o tranqüilizou, dando a entender que era discreta e interessada nos segredos da irmã.

E, já sem indícios de gracejo, aconselhou-o a que freqüentasse a casa com mais assiduidade; um Domingo sim, outro não, para jantar. Seria muito bem recebido, alguém fazia questão dessas visitas...

Amâncio, no seu papel de inocente, quis saber quem era esse alguém , mas a rapariga negou os esclarecimentos e pediu-lhe em segredo que se calasse, piscando o olho para o lado esquerdo, onde acabava de se assentar um sujeito gordo, de barba toda raspada.

— É o Costa! Nada lhe escapa!... soprou ao estudante por debaixo do leque.

E depois em voz alta, disfarçando:

— Pois o baile do Melo esteve muito bom!...

— Muito...confirmou Amâncio. — Há longo tempo não me divirto assim!...Mas, para a senhora creio que ainda seria melhor, as lá estivesse certa pessoa!... — Quem? O guarda-livros?...Ora!...

E, com ar desdenhoso, declarou que há quinze dias ficara tudo acabado.

— Seriamente? perguntou o estudante.

— Sério! E não me sinto com isso, até estimo! No fim de contas aquilo é um tipo impossível; tão depressa está para o norte como para o sul!

— Mas a senhora parecia gostar dele tanto...

— Pensei que fosse outra coisa...respondeu Carlotinha, franzindo os lábios. – Quando, porém descobri o que ali estava, dei tudo por acabado! Foi muito bom; antes assim do que depois do casamento!...

E, para mostrar a sinceridade daquela indiferença, ria com exagero e dava a sua palavra de honra em como não tinha paixão por homem nenhum deste mundo. Havia de casar sim, porque isso era necessário, mas não que preferisse este ou aquele. Todos eles eram a mesma coisas uns tipos!

Amâncio defendia o seu sexo, experimentando já pela rapariga uma nascente repugnância instintiva.

Quando, às três horas da madrugada, os dois estudantes se despediram, Campos, entre muitos oferecimentos, pediu ao “Sr. Dr. João Coqueiro” que voltasse qualquer dia, mas com a família. Ele tinha nisso muito bom gosto.

Coqueiro prometeu fazer-lhe a vontade e retirou-se com o amigo.

* * *

Quase nada conversaram pelo caminho. Amâncio parecia aflito por se meter na cama; uma vez, porém , recolhido ao seu novo quartinho do segundo andar, não sentia as menor disposição para dormir.

A circunstância de saber que Lúcia estava ali tão perto, a quatro ou cinco passos, mas inteiramente fora do seu alcance, o indispunha como se fosse uma pirraça levantada com o fim único de o afligir.

Não resistiu ao desejo de ir, como da outra vez, espreitar pela fechadura do quarto em que ela morava, e encaminhou-se sorrateiramente para o n.° 8. Nesta tentativa, porém, foi ainda mais infeliz do que da primeira, porque a janela do corredor ficara aberta, e Amâncio principiou a espirrar , constipado.

O doente do n.° 7 tossicava, de vez em quando.

Amâncio voltou ao quarto, muito aborrecido. Abriu um livro, mas repeliu-o logo, com tédio. Lembrou-se de fazer café. (Na véspera comprara uma maquinazinha e os apetrechos necessários para isso.) — O melhor, porém, seria melhor tomar o café depois de um banho Deu lume à máquina e desceu ao primeiro andar, já despido e rebuçado no lençol.

(continua...)

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