Por José de Alencar (1875)
- É verdade, celebridades européias, pois ainda não as temos brasileiras; isto é, em fotografia, que no mais sobram. Admira que nesta terra tão propensa à especulação e ao charlatanismo, ainda ninguém se lembrasse de arranjar uns álbuns de celebridades nacionais. Pois se havia de ganhar muito dinheiro; não só na venda de álbuns, mas sobretudo na admissão dos pretendentes à lista das celebridades.
- Diga antes o rol.
- É com efeito mais expressivo.
- O que isto prova, observou Aurélia, é que a literatura tem feito maiores progressos em nosso país do que a arte; pois se não me engano já há por aí, dentro e fora do país empresas montadas para exploração da biografia.
- Tem razão.
- Escapou de casar-se com uma contemporânea ilustre, acrescentou Aurélia grifando as últimas palavras com o mais fino sorriso.
- Ah! Não sabia! Lamento profundamente não ter de acumular essas tantas honras que recebi.
- Pois estive ameaçada de andar por aí em não sei que revista ou gazeta, na qualidade de brasileira notável. Creio eu que o meu título à celebridade era a herança de meu avô. Foi-me preciso tomar umas dez assinaturas para defender-me da glória que esses senhores pretendiam infligir-me.
Nesta conversa e na revista dos retratos consumiram os dois muito tempo.
A pêndula acabava de soar uma hora. O criado abriu com estrépido a porta da sala de jantar, como para advertir de sua entrada; e disse aportuguesando o termo inglês luncheon segundo o costume geral:
- O lanche está pronto.
- Vamos? Perguntou a moça erguendo-se.
Seixas fechou o álbum e acompanhou a mulher.
O criado que vira os dois noivos inclinados sobre o álbum, sorriu com ar brejeiro. Fernando percebeu o sorriso e corou.
III
Frutas da estação: abacaxis, figos e laranjas seletas, rivalizando com as maçãs, pêras e uvas de importação, ornavam principalmente a refeição meridiana que os costumes estrangeiros substituíram à nossa brasileira merenda da tarde, usada pelos bons avós.
Havia também profusão de massas ligeiras, como empadinhas, camarões e ostras recheadas, além de queijos de vários países e doces de calda ou cristalizados. Os melhores vinhos de sobremesa desde o Xerez até o Moscatel de Setúbal, desde o Champanha até o Constança, estavam ali tentando o paladar, uns com seu rótulo eloqüente, outros com o topázio que brilhava através das facetas do cristal lapidado.
- Não tenho a menor disposição! disse Fernando obedecendo ao gesto de Aurélia e sentando-se à mesa.
- Ora! disse a moça com volubilidade. Para provar frutas e doces não é preciso Ter fome; faça como os passarinhos. O que prefere? Um figo, uma pêra ou o abacaxi?
- É preciso que eu tome alguma coisa? perguntou Fernando com seriedade.
- É indispensável.
- Nesse caso tomarei um figo.
- Aqui tem; um figo e uma pêra; é apenas um casal.
Seixas inclinou a cabeça; colocou o prato diante de si e comeu as duas frutas, pausada e friamente, como um homem que exerce uma ação mecânica. Nada em sua fisionomia revelava a sensação agradável ao paladar.
Aurélia que esmagava entre os lábios purpurinos bagos de uva moscatel, seguia com os olhos os movimentos automáticos de Fernando, e se não adivinhava, confusamente pressentia o motivo que atuava sobre seu marido.
Ergueu-se então da mesa, e saindo fora, à beirada da casa, onde já fazia sombra, divertiu-se em dar de comer aos canários e sabiás, que festejaram sua chegada com uma brilhante abertura de trinados e gorjeios.
Pensava Aurélia que sua presença porventura acanhava o marido; e buscava aquele pretexto para arredar-se um instante e deixá-lo mais livre de cerimônias. Desvaneceu-se porém essa idéia do seu espírito, quando espiando pela fresta da janela, viu Seixas imóvel, com os olhos fitos na parede fronteira, e completamente absorto.
Depois do lanche, Aurélia convidou o marido para darem uma volta pelo jardim; mas
havia senhoras nas janelas da vizinhança, e a moça não quis expor-se aos olhares curiosos. Ela não era a noiva feliz e amada; mas as outras a supunham, e tanto bastava para que seu pudor a recatasse às vistas dos estranhos.
Voltaram pois à saleta.
Aí andaram a borboletear de um a outro assunto, mas apesar do desejo que tinham, de prolongar a conversação, ou talvez por essa mesma preocupação que os distraía, não encontraram tema para divagar.
(continua...)
ALENCAR, José de. Senhora. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1847 . Acesso em: 27 jan. 2026.