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#Romances#Literatura Portuguesa

A brasileira de Prazins

Por Camilo Castelo Branco (1882)

D. Teresa sentia-se mal, num embaraço quase ridículo, naquele meio. Marta não a largava, parecia uma criança espavorida, agarrada ao vestido da mãe, assim que ouvia os passos do tio. Ele, muito carinhoso, com o monóculo no olho direito, a oferecer-lhe castanhas de ovos, toucinho do céu, a pegar-lhe da mão e a fazer-lhe festas no rosto muito corado de pudor. D. Teresa discretamente deixou-os sozinhos. A Marta ficou a olhar para a porta por onde a amiga se evadira, e fazia uns gestos de quem meditava raspar-se; mas o marido tinha-a segura pelas mãos mimosas, beijando-lhas ambas com uma sensualidade delicada, um pouco babada, mas muito comedida, estendendo os beijos quentes e húmidos até aos pulsos lácteos e redondinhos. Marta, numa impassibilidade, não se recusava às carícias, e pareceu mesmo inclinar um pouco o rosto quando o esposo com um bom sorriso do amor dos quinze anos lhe pediu um beijinho, que foi mais demorado do que era de esperar da sua candura e da inexperiência de tais delícias. Estavam ambos rosados; mas o rubor de Marta era carminado de mais e nos seus olhos havia uma rutilação vaga pela extensão da grande sala. Ela via a sombra de José Dias: era o José Dias em pessoa, dizia ela depois a D. Teresa, quando recuperou os sentidos, e não sabia como a transportaram para a cama da sua amiga. Apenas se lembrava de que o tio, depois que a beijara no rosto, a levara pelo braço e entrara com ela no seu quarto, apertando-a muito ao peito, levantando-a nos braços com muita força, não a deixando fugir e sufocando-lhe os suspiros com os beijos. Não se lembrava de mais nada. E D. Teresa, quanto cabia na sua alçada, contava-lhe o resto imperfeitamente; isto é, que o marido a fora chamar ao laranjal, um pouco aflito, dizendo que a sua esposa estava na cama sem sentidos; e pedia vinagre para lhe chegar ao nariz.

Padre Osório veio jantar e buscar a irmã. Observou no aspecto do brasileiro uma irradiação de felicidade, o júbilo de uni homem que se sentia impavidamente completo, na integridade da sua missão filogínica. Foi então que o padre assentou as suas teonas um pouco flutuantes acerca das vantagens da castidade em benefício das impurezas alheias.

O Feliciano, quando o cirurgião chegou à tarde, contou-lhe com pouco recato de pudicícia conjugal as circunstâncias, particularidades ocasionadas no , dizia ele. O facultativo, um velho patusco, disse que não se admirava, porque a Srª D. Marta era muito nervosa, imperfeita ainda na sua organização, e que as impressões desconhecidas e um pouco violentas nas constituições fracas produziam extraordinárias perturbações; mas que não se assustasse, que não era nada; que as segundas naturezas se faziam com o hábito.

– Banhos de mar – aconselhava – bife na grelha e vinho do Porto, quanto mais choco melhor. O que se quer cá fora é um rapaz; não há como um filho para fortalecer a compleição de uma mulher débil; um filho, quando sai do ventre da mãe, traz consigo para fora os maus nervos, e acabam os chiliques. Ande-me com um rapagão para a frente!

Na ausência de D. Teresa, a melancolia de Marta cerrava-se de dia para dia. O governo da casa era-lhe de todo indiferente, como se fosse hóspeda. O marido não a compelia a interessar-se nesses arranjos de que, dizia o Simeão, ela nunca quisera saber em Prazins. O barão do Rabaçal mandara-lhe do Porto cozinheira e governanta. Marta saía raras vezes de uma saleta onde tinha um oratório que trouxera de casa. Confessavase mensalmente a Frei Roque, o irmão da sua mestra, e professor do de Vilalva, e demorava-se no confessionário com perguntas desvairadas a respeito da alma de José Dias, porque dizia ela ao padre-mestre que o via muitas vezes em corpo e alma, e até o ouvia falar e lhe sentia as mãos no seu corpo. O frade, sem revelar o sigilo da confissão, dizia à irmã que a Marta dava em doida como a mãe.

O Feliciano ficou espavorido quando a mulher, num dos paroxismos epilépticos, se pôs a rir para ele com os olhos espasmódicos e a chamar-lhe José, seu Josezinho. Passada a nevrose, quando ela imergia num torpor físico e mental, o marido contou-lhe o caso de lhe chamar Josezinho. Ela parecia esforçar-se muito para recordar-se, e dizia que não se lembrava de nada. Vinha o cirurgião a miúdo: – que era histerismo, e consolava o marido com a esperança no tal rapagão, esperanças bem fundadas, segundo as confidências do pai; mas, consultado pelo padre Osório, o Pedrosa, um grande clínico, dizia que a brasileira não tinha simplesmente a gota coral; que havia ali epilepsia complicada com delírio, alienação mental intermitente, um estado de inconsciência ou consciência anormal, e que verdadeiramente se não podiam determinar bem quais eram os seus actos de lucidez intercorrente. – Ela está grávida – observou o vigário de Caldelas. – Parece que este facto denota uma tal ou qual normalidade de consciência, uma concepção racional dos deveres de esposa...

(continua...)

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