Por Lima Barreto (1921)
“Sobre a velha questão de Madalena com Campos, acerca de seus limites, está em vias de ser solucionada pelo digno presidente do Estado, a cujo estudo foram submetidos os respectivos documentos.”
A continuarem as coisas assim, em breve, haverá questões de limites entre distritos ou circunscrições, bairros e ruas. O Brasil está bem unificado. Careta, Rio, 6-12-1919.
ACADEMIA DE LETRAS
De quando em quando surge a notícia da fundação de uma nova academia de letras. Ultimamente, segundo se lê nos jornais, foi fundada uma em Niterói.
Temos, portanto, uma academia na Praia Grande e com quarenta membros que descobriram quarenta outras sumidades mortais que lhes apadrinham as poltronas.
Por todos esses Estados brasileiros, há academias literárias e todas elas com quarenta imortais, sendo os Estados vinte e incluindo a do Distrito Federal, vulgo, brasileira, temos, se a aritmética não falha, oitocentas e quarenta sumidades literárias, o que não é muito para país tão vasto e tão culto, como dizem ser o nosso.
A moda, porém, já está passando dos Estados para os municípios e destes para os bairros.
Já se falou aqui de uma academia suburbana; fala-se na de uma especial para Santa Cruz.
Não conheço a vida do famoso curato , onde está o matadouro; mas pessoa informada me disse que é coisa assentada lá a criação de uma.
Conheço poucas pessoas lá residentes e pouco poderei adiantar sobre a constituição da nova “ilustre companhia”.
Mas, sob a cúpula da augusta sociedade saída de tão distante localidade, há de sentar-se por força o senhor Otacílio Camará que será naturalmente o seu presidente.
Aos muitos títulos que ele já possui, juntar-se-á mais este, para orgulho de seus
eleitores.
Não terminarei, sem lembrar aos meus confrades de Niterói, que eles se esqueceram entre os seus paraninfos de Fagundes Varela. Careta, Rio, 13-12-1919.
O SALDO
No meado da semana passada, os povos destes brasis foram surpreendidos com a notícia de golpes de morte desfechados em duas tradições veneráveis: uma, da nação, e a outra, da cidade.
Refiro-me ao anúncio de que para o ano que vem, o orçamento havia de fecharse com saldo avultado e do aviso do observatório do Castelo de que o venerável “balão do meio dia” ia ser suprimido e substituído por lâmpadas elétricas de tal força que a sua luz seria capaz de bater a do Sol a pino e brilhar mais do que a do astro-rei.
O balão, segundo dizem, tem oitenta anos de existência; o déficit, porém, é mais velho.
Não sei se ele vem do tempo do Brasil colônia; mas é de crer que sim, porquanto os reis de Portugal, mesmo nos tempos da maior prosperidade do velho reino, sempre andaram em aperturas, imaginando expedientes para arranjar dinheiro.
Às vezes, atiravam-se à bolsa dos judeus; às vezes a concessões de estancos e monopólios. Saldo, porém, não havia.
Isto, porém, não posso eu afirmar com segurança, porquanto, apesar de ser as minhas luzes no assunto muito poucas, creio mesmo que, por aquelas priscas eras, os soberanos não se davam ao trabalho de ter escrita de suas finanças ou coisa que o valha.
O princípio dos seus orçamentos devia ser o daquele pândego que dizia ser a receita determinada pela despesa e não esta por aquela.
Com o império, salvo em três ou quatro exercícios, se não estou em erro, o déficit foi constante.
A monarquia é o déficit, dizia alguém na Câmara.
Se era assim no império, que se dirá na república?
1920 vai marcar uma nova era nas finanças da república, pois, graças ao senhor Antônio Carlos , vamos ter saldo orçamentário.
O que me admira é que, tendo sido este ilustre senhor ministro da Fazenda, não se lembrasse ele de conseguir coisa tão portentosa, quando tinha a faca e o queijo nas mãos.
Sua excelência podia ter dado um bom exemplo de ministro republicano se tal fizesse; mas não quis e esperou ser relator do orçamento, para realizar com um estupendo e famoso jogo de cifras tão maravilhosa obra que está provocando para a sua importante pessoa uma grande admiração de todas as camadas da sociedade.
Os algarismos têm o seu mistério. Pitágoras e Augusto Comte tinham alguns por sagrados; e o povo tem singular ojeriza pelo treze que reputa nefasto, por trazer azar.
Os do senhor Antônio Carlos devem também possuir o seu transcendentalismo esotérico; e eu, que não sou dado à cabala e outras ciências ocultas, estou impossibilitado e mesmo não quero decifrar o enigma que encerram. Careta, Rio, 20-12-1919.
QUALQUER SERVE
Aconteceu isto em Pernambuco. Não sei mesmo em que cidade, mas foi nas proximidades do Recife.
Havia lá uma família muito rica, cujo chefe era o Barão de ***.
Tinha este muitas filhas e nenhum varão; e todos os bacharéis da redondeza cercavam as meninas de todas as homenagens.
(continua...)
BARRETO, Lima. Vida urbana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2171 . Acesso em: 8 maio 2026.