Por Aluísio Azevedo (1882)
— Fez bem! respondeu-lhe o médico à sua primeira pergunta; fez bem em não contrariá-la. Descanse que não levarão aqui muito tempo... Ela se aborrecerá em poucos dias!...
E, depois que o comendador lhe tornara a falar da cena da pedreira, interrogou:
— Ela estava em jejum?...
— Não. Havia tomado leite antes de sair de casa.
— Mas a crise só veio à volta?
— Só; continuando, porém, com uma tal veemência, que fiquei deveras assustado... Nunca eu a vira assim tão mal, doutor...
— Ela teve antes disso alguma contrariedade?
— Não...
— Viu alguma coisa que a assustasse?... encontrou-se com qualquer objeto que a sobressaltasse?...
— Não. Nada disso. Teve apenas uma vertigem quando estava lá em cima da pedreira; o moço carregou com ela e...
— Que moço?!... interrompeu o médico.
— Um trabalhador que se ofereceu para a pôr cá em baixo.
— E trouxe-a?
— Perfeitamente.
— Ela estava sem sentidos?
— Não dava acordo de si.
— E o rapaz... que idade terá ele?...
— Uns vinte e cinco anos.
— Era homem forte?...
— Fortíssimo. — Ah!
E, depois que o médico recebeu mais algumas informações de outro, bateu com o guarda-chuva no chão e disse entre dentes:
— Compreendo! compreendo, coitada!...
E, como o velho quisesse saber o que ele resmungava, Roberto respondeu, afagando a barba:
— O melhor, meu caro comendador, é arranjar-lhe as pazes com o marido! Isso é que era!
Tanto para o velho Ferreira, como para a filha, se fez então uma vida muito especial. Olímpia acordava cedo, três horas antes do que era seu costume em Botafogo, banhava-se n’água fria, enfiava um paletó de casimira e saía a passear pelo braço do pai. Voltava à hora de almoço, depois do qual lia o seu romance, ou tentava alguma música em um velho piano adormecido às moscas na sala de bilhar. Às vezes dormia, de outras vezes costurava ou não fazia coisa alguma, até que o Papá Falconnet vibrava afinal a campainha chamando para a mesa. Depois do jantar saía de novo a passeio ou ficava entretida a olhar para os trabalhos da pedreira no fundo da chácara.
Era bem singular o que sentia Olímpia à vista dos trabalhadores da pedreira. Seu espírito, finamente educado entre carinhos de família e amimado pelos costumes de uma vida feliz, contrariava-se sobremaneira com a ausência do meio superior em que se desenvolvera; mas o corpo, ao contrário, forcejava por saltar fora desses arraiais e precipitar-se aventurosamente nos domínios do desconhecido.
Uma vez olhava para os trabalhadores da pedreira, quando viu aproximar-se deles uma rapariga. Era ainda moça, forte, e rica de quadris. Levava uma cesta no braço e parecia alegremente empenhada pelo serviço que fazia. Um dos trabalhadores, ao vê-la, soltou uma estrondosa exclamação de prazer e correu ao seu encontro.
A mocetona depôs a cesta ao chão e estendeu-lhe a cara. Ele a beijou em cheio na boca e abraçou-lhe a cintura. Depois seguiram juntos para o lado dos companheiros; sentaram-se todos em volta de uma pedra, despejaram a cesta e principiaram a comer alegremente, ao sol.
Esta cena produziu na filha do comendador uma impressão penosa e ao mesmo tempo agradável. Fizera-lhe mal aos nervos o espetáculo daquela ternura grosseira e sincera, mas sentira apetite de participar do almoço daquela pobre gente. Ela, com quem já não iam os imaginosos acepipes da mesa de seu pai, desejou comer do bocado dos trabalhadores, beber do seu vinho ordinário e palestrar com eles, em torno daquela mesa de pedra, informe e tosca, mas tão alta e tão alevantada, que Olímpia não podia chegar até lá sem perder os sentidos.
E tão empenhada ficou a ver aquele espetáculo, que a não conseguiram tirar daí senão quando os trabalhadores, depois de beberem pela mesma garrafa, deram o almoço por findo e despediram a rapariga.
Só então Olímpia reparou que, a pequena distância dela, estava Gregório, assentado debaixo de uma árvore, com uma pasta sobre as pernas cruzadas, na atitude de quem copiava a pedreira. A histérica ficou logo tomada duma grande curiosidade por aquele desenho, e foi pouco a pouco se aproximando do rapaz. Ele a sentia chegar perfeitamente, mas fingia não dar por isso e afetava grande preocupação com o seu trabalho; ela afinal estacou discretamente por detrás do desenhista e ficou a observar-lhe o debuxo por cima do ombro. Gregório prosseguiu no seu desenho, como se continuasse inteiramente só; todavia a presença de Olímpia lhe perturbava de leve o espírito e lhe punha no coração um doce enleio amoroso. Ele se penetrava dela sem a ver, aspirando-lhe o perfume sensual do corpo e o hálito suave da respiração oprimida.
E ela, presa pelo interesse do desenho, ia cada vez mais se aproximando de Gregório, sem notar que já lhe tocava com o rosto na cabeça. O rapaz voltou-se finalmente e cumprimentou-a com toda a delicadeza.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.