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#Romances#Literatura Brasileira

Filomena Borges

Por Aluísio Azevedo (1884)

"No meu livro sobre o Oriente" (É bom falar nisso!) "escrito de colaboração com minha mulher, a Exma. Sra. baronesa de Itassu, e que muito breve verá a luz da publicidade, hei de provar o que há pouco avancei!".

E depois de dar ao Borges o tempo de escrever:

"Na política espanhola, na qual tive a honra de tomar parte durante as últimas revoluções do Cantonalismo..."

— Mas, filho, eu não tomei parte nisto! protestou o Borges, largando a pena e limpando o suor da testa. — O que se passou foi só aquilo que te contei! Para que havemos nós de dizer uma coisa que não é verdade?!...

— Cala a boca, homem de Deus!

— Não! Hás de convir que...

— Mau! Se você conta escrever só a verdade, esta bem servido nas suas pretensões! É melhor então cuidar de outra coisa!

O Borges coçou a cabeça, sem responder...

— Em política, meu amigo, disse o outro — verdadeiro é só aquilo que nos convém. Que diabo há de então você dizer, no caso que esteja resolvido a alegar em seu favor somente os seus serviços reais prestados à política?... Sim! Queres saber o que foi que você já fez por este ou por aquele partido! Se há qualquer coisa, diga, porque, olhe! não me conta!

O Borges olhou para ele, sempre a coçar a cabeça.

— Por conseguinte deixe-se de histórias, e escreva! Escreva, que o resto fica por minha conta!

Dai há pouco, suscitou a mesma questão a respeito de D. Luís de Portugal. O Guterres queria que o amigo desse a entender no seu artigo que havia em Paris gozado "a estima e a confiança do bom e afável Duque do Porto".

— Não! Essa agora é que não passa! reagiu o Borges energicamente. — Ainda com o Cantonalismo — vá! porque enfim o basbaque do estalajadeiro, tomoume por um correligionário; mas com o D. Luís valha-me Deus! a coisa é muito diversa! Homem, pois se ele nem mesmo chegou a trocar uma palavra comigo, que até supunha que eu não entendesse o português!... Eu estava de botocudo!...

— Mas é a mesma coisa, João! Você não entende disto! Faça o que lhe digo e deixe-se de escrúpulos sem razão de ser!

Afinal entraram em acordo, e o primeiro artigo ficou pronto. O Guterres iria levá-lo pessoalmente ao Jornal do Commércio.

— Ah! soprou o Borges, atirando-se a uma cadeira. — Deste estou livre!

Mas foi logo interrompido pela mulher, que lhe vinha dar parte que no dia seguinte, antes de principiar o baile do Cassino, organizado no próprio hotel Bragança, onde havia um teatrinho, ela dançaria um de seus tangos e cantaria uma de suas modas para fazer a vontade ao padrinho.

— Está tudo perdido! calculou o Borges, empalidecendo. — Adeus sossego! O diabo é dançar a primeira vez!

E o pobre homem tinha razão. A noticia de que Filomena ia dançar levantou entusiasmo. Petrópolis assanhou-se; o hotel Bragança encheu-se de curiosos; por toda a cidade só se falava na baronesa de Itassu; todos queriam ajudar nos preparativos da festa; foi preciso fechar o salão do baile para conseguir-se fazer alguma coisa. O Borges viu-se atrapalhado.

No dia da função, às sete horas da noite, já se não podia transitar na rua do Imperador. De todos os lados acudia gente; os carros grupavam-se em todo o comprimento do rio. Uma curiosidade febril agitava os corações.

E quando, acesos os candeeiros de querosene, organizada a platéia, distribuídos os lugares, o monarca já instalado com o seu seminário, ergueu-se o pequeno pano do teatrinho e Filomena principiou a dançar o tango, o entusiasmo difundiu-se de tal modo, que foi preciso empregar todos os meios para contê-lo.

Era a primeira vez que o salão do frio e sisudo Cassino experimentava uma febre daquela ordem.

Terminado o ato, o Imperador dignou-se cumprimentar pessoalmente a formosa artista e prometeu que dançaria com ela uma quadrilha francesa.

Este ato foi aplaudido em geral, como um rasgo de verdadeira justiça.

Afastaram-se logo as cadeiras e os bancos da platéia, desembaraçando-se o salão para a dança e, daí a pouco a linda baronesa de Itassu, em grande uniforme de baile, era a soberana daquela festa. O padrinho dirigiu-lhe por várias vezes a palavra e disse-lhe que simpatizava muito com o barão e que mais tarde havia de dar provas dessa simpatia.

Espalhou-se logo o boato de que o imperador estava deveras apaixonado pela irresistível afilhada e que esta lhe correspondia de um modo escandaloso.

Verdade é que, depois do primeiro baile, não se passava um dia em Petrópolis, sem que D. Pedro tivesse ocasião de se encontrar com ela; e, quando havia dança, o bom príncipe não lhe dispensava a sua quadrilhazinha e os seus dois dedos de palestra.

— Belo monarca! Belo monarca! dizia o Guterres. E ainda havia por aí toleirões que falavam em república e revolução! Onde iriam encontrar um chefe mais lhano, mais condescendente, mais generoso, mais democrata que aquele?... um verdadeiro amigo de seu povo!

(continua...)

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