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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

Campos, que lhe apareceu em seguida, veio transformar esse desejo em vontade, falando-lhe da correspondência extraordinária que, pelo mesmo paquete, recebera do Maranhão. O velho Vasconcelos também lhe havia escrito, e, com tanto interesse lhe falara de Amâncio, tão inconsolável se mostrara e tão saudoso pelo filho, e com tal insistência pedira ao negociante para olhar pelo rapaz, que o bom homem não hesitou em correr logo à casa de pensão de Mme. Brizard.

O estudante carregou com ele para o quarto. — Aí conversariam mais à vontade.

— Pois, meu nobre amigo, disse o marido de Hortênsia, assentando-se defronte de Amâncio , e batendo-lhe uma palmada na coxa, — seu pai não se cansa de falar a seu respeito. São as saudades, coitado!

E tirando uma carta do bolso para entregar ao outro:

— Leia, leia e veja como está triste o pobre velho! Ah! meu amigo, acredite que — possuir um pai é a maior fortuna que se pode ambicionar neste mundo! Amâncio, entre outras coisas, leu o seguinte:

“Não imagina o Sr. Campos os cuidados em que eu e a minha boa Ângela nos temos visto por cá com a ausência do rapaz. Nunca pensei que nos fizesse tanta falta. Ela, coitada, leva a chorar desde que amanhece, e à noite é aquela certeza dos sonhos ruins a mais não ser! Acho-a muito magra e abatida de tempos a esta parte. Então quando não recebe cartas do filho, o que já se observa há três vapores consecutivos, fica prostrada de tal modo que se não pode levantar da cama. “Veja, por conseguinte, se alcança que o nosso estudante nunca nos deixe de escrever; duas palavras que sejam , dizendo como está de saúde e que vai bem nos seus estudos. Isso, que a ele não custará muito, poupa todavia cá por casa muitas horas de sofrimento e de desgosto.

“Até já me lembrou providenciar no sentido de fazê-lo vir no fim do ano passar as férias conosco, não sei, porém, se tal coisa será conveniente ainda tão no princípio da carreira. O amigo dispensar-me-á o obséquio de escrever a esse respeito.

“Em todo o caso, a idéia de que o senhor está aí, perto dele, e que , pelo que tem mostrado, é deveras nosso amigo, tranqüiliza-nos em grande parte. Conto, pois , que olhará sempre por Amâncio. Tenha paciência, sei que o importuno com estas coisas , mas que hei de fazer? Dizem tanto dessa Corte; falam de tal forma do clima e dos mil perigos a que aí esta sujeita a mocidade, que, só a lembrança de uma tísica galopante ou de um desses desvios, uma dessas loucuras que às vezes acometem aos rapazes e inutiliza-os para o resto da vida; uma dessas desgraças, Sr. Campos, que lhes sucedem facilmente, quando eles não dispõem de um bom amigo que os encaminhe e aconselhe; só a lembrança de tudo isso, meu caro senhor, é o bastante para me tirar o sossego do espírito.

“Tenha a bondade, sempre que falar ao meu rapaz, de lembrar-lhe as obrigações e dizer-lhe com franqueza a responsabilidade que agora lhe assiste. Ele está se fazendo homem e precisa prepara futuro. Sirva-lhe de pai; acompanhe-o e proteja-o com o mesmo desvelo de que usou meu irmão para guiar a sua mocidade.” — Vê, disse o Campos, abalado com as palavras do irmão de seu protetor.— São estes os desejos de seu pai; ao senhor compete agora, como bom filho, fazerlhe o gosto, e dar-lhe a felicidade de que ele precisa para o resto da vida. O que estiver em minhas forças está à sua disposição mas o senhor também deve fazer por si, já não é tão criança para não ver o que lhe fica bem e o que lhe fica mal! Enfim, tenho toda a confiança no senhor, seu Amâncio, e estou convencido de que não me desmentirá!

Amâncio, que até aí ouvia o Campos em silêncio e com os olhos presos a um ponto, agradeceu-lhe muito aquele interesse e jurou que todo o seu empenho era corresponder à expectativa de seus pais e ser agradável o mais possível aos verdadeiros amigos de sua família.

E a conversa, tomando novas direções, descaiu em assuntos menos circunspectos. Veio então à bulha o baile do Melo, e Campos se queixou de que Amâncio, depois disso, nunca mais lhe aparecera em casa.

— Já tinha a intenção de lá ir domingo.

— Não, contradisse o negociante. — Vá antes sábado, amanhã, que é aniversário de meu casamento. Não há festa, mas reúnem-se alguns camaradas e toca-se um bocado de piano. Adeus. Não deixe de ir. Olhe, se quiser pode levar seus amigos. Adeusinho.

Amâncio acompanhou-o até a porta da rua e voltou ao quarto.

(continua...)

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