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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

- Permite? 

- Já lhe disse que não me incomoda! Retorquiu a moça com um assomo de impaciência. 

- Desculpe-me; não tendo recebido um consentimento formal, receei contrariá-la. 

- Há receios que mais parecem desejos! Observou a moça com ironia. 

- O tempo a convencerá de minha sinceridade. 

- O tempo!... Ah! Se realizasse tudo quanto dele se espera! Exclamou Aurélia com acerba irrisão. 

Subtraindo-se a esse ímpeto de sarcasmo, que sublevou-lhe a alma dorida, a moça refugiou-se numa banalidade. 

- O melhor é não confiar nele e viver do presente. O verdadeiro livro é o jornal com a crônica da véspera e os anúncios do dia. 

Seixas continuou a percorrer os jornais, como se acedesse ao gosto de Aurélia. Nesse rápido exame ia lendo as epígrafes, a ver se alguma tinha a virtude de excitar a curiosidade da moça. 

- Como são interessantes estas folhas! Disse Aurélia que buscava um pretexto para expandir a irritação íntima. Quando me lembro de abri-las, o que faço raras vezes porque não tenho braços que cheguem para essa difícil empresa, sucede-me sempre julgar que estou lendo um jornal do ano anterior. 

- A culpa não é do jornal, mas da cidade em que se publica, e da qual deve ser, como disse há pouco, o livro diário, ou a história da véspera. 

- Perdão, não me lembrava que também foi jornalista. 

Como Aurélia se calasse, e as folhas não fornecessem mais assunto à conversação, Seixas aproveitou a censura freqüentemente dirigida à imprensa periódica em nosso país, para fazer sobre o tema algumas variações, com que enchesse o tempo. 

Está entendido que tratou a questão sob um ponto de vista ameno, que pudesse conciliar a atenção de uma senhora; Aurélia escutou-o alguns momentos com atenção; mas observando que o marido falava com o tom monótono e a pausa calculada de quem desempenha uma tarefa, e longe de dar franca expansão ao pensamento, ao contrário solicita o espírito rebelde, a moça interrompeu essa dissertação erguendo-se do sofá. 

Deu algumas voltas pela saleta; percorreu com os olhos o aposento, reparando no papel, nos móveis e adereços, como se nunca os tivesse examinado, ou indagasse se nada faltava. Passou depois a observar atentamente as figurinhas de porcelana e outras quinquilharias que havia sobre os consolos, tirando-as de seu lugar e mudando-lhes a posição. 

Daí encaminhou-se ao piano, que é para as senhoras como o charuto para os homens, um amigo de todas as horas, um companheiro dócil, e um confidente sempre atento. Ao abrir o instrumento, lembrou-se que não era próprio a uma noiva da véspera entregar-se a esse passatempo quando vizinhos e criados, todos deviam supô-la àquela hora engolfada na felicidade de amar e ser amada. 

Ah! Ela não conhecia essa aurora mística do amor conjugal, que se lhe transformara em vigília de angústia e desespero. Mas adivinhava qual devia ser a transfusão mútua de duas almas, e compreendia que , ávidas uma da outra, não se podiam alhear em estranho passatempo. 

Abandonando o piano, disfarçou em percorrer os livros de música, arrumados sobre o móvel apropriado, uma espécie de  estante baixa de prateleiras verticais. Aí esteve a folhear apenas, solfejando a meia voz os trechos favoritos, e quiçá buscando um que respondesse aos recônditos pensamentos, ou antes que traduzisse o indefinível sentimento de sua alma naquele instante. 

Parece que achou afinal essa nota simpática, pois sua voz desprendia-se num alegro de bravura, quando lembrou-se que não estava só. Volveu um olhar para o sofá, onde havia deixado o marido, que porventura a estaria observando, surpreso de sua mímica. 

Seixas, ao apartar-se a moça, tomara de cima da mesa um álbum de fotografias, e entretinha-se em ver as figuras. 

- Está vendo celebridades? Perguntou a moça, que viera de novo sentar-se ao sofá. 

Fernando que compreendeu que a pergunta não era senão malha para travar conversa, e dispôs-se a satisfazer o desejo da mulher. 

(continua...)

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