Por Camilo Castelo Branco (1862)
— Morrerás?!... Tanta gente desgraçada que eu fiz!...
A febre aumentava. Os sintomas da morte eram visíveis aos olhos do capitão, que tinha sobeja experiência de ver morrerem centenares de condenados, feridos da febre no mar, e desprovidos de algum medicamento.
Ao quarto dia, quando a nau se movia ronceira defronte de Cascais, sobreveio tormenta súbita. O navio fez-se ao largo muitas milhas, e, perdido o rumo de Lisboa, navegou desnorteado. Ao sexto dia de navegação incerta, por entre espessas brumas, partiu-se o leme defronte de Gibraltar. E, em seguida ao desastre, aplacaram as refregas, desencapelaram-se as ondas, e nasceu, com a aurora do dia seguinte, um formoso dia de primavera. Era o dia de primavera. Era o dia 27 de março, o nono da enfermidade de Simão Botelho.
Mariana tinha envelhecido. O comandante, encarando nela, exclamou:
— Parece que volta da índia com os dez anos de trabalhos já passados!...
— Já acabados... de certo... — disse ela.
Ao anoitecer desse dia o condenado delirou pela última vez, e dizia assim no seu delírio:
"A casinha, defronte de Coimbra, cercada de árvores, flores e aves. Passeavas comigo à margem do Mondego, à hora pensativa do escurecer. Estrelava-se o céu, e a Lua abrilhantava a água. Eu respondia com a mudez do coração ao teu silêncio, e, animada por teu sorriso, inclinada a face ao teu seio, como se fosse o de minha mãe... De que céu tão lindo caímos!... A tua amiga morreu... A tua pobre Teresa..."
"E que farias tu da vida, sem a tua companheira de martírio?... Onde irás tu aviventar o coração que a desgraça te esmagou?!... Rompe a manhã... Vou ver a minha última aurora... a última dos meus dezoito anos. Oferece a Deus os teus padecimentos, para que eu seja perdoado... Mariana..."
Mariana colocou os ouvidos aos lábios roxos do moribundo, quando cuidou ouvir o seu nome.
"Tu virás ter conosco; ser-te-emos irmãos no céu... O mais puro anjo serás tu... se és deste mundo, irmã; se és deste mundo, Mariana..."
A transição do delírio para a letargia completa era o anúncio infalível do trespasse.
Ao romper da manhã apagara-se a lâmpada. Mariana saíra a pedir luz, e ouvira um gemido estertoroso. Voltando às escuras, com os braços estendidos para tatear a face do agonizante, encontrou a mão convulsa, que lhe apertou uma das suas, e relaxou de súbito a pressão dos dedos.
Entrou o comandante com uma lâmpada, e aproximou-lha da respiração, que não embaciou levemente o vidro.
— Está morto! — disse ele.
Mariana curvou-se sobre o cadáver, e beijou-lhe a face. Era o primeiro beijo.
Ajoelhou depois ao pé do beliche com as mãos erguidas, e não orava nem chorava. Algumas horas volvidas, o comandante disse a Mariana:
— Agora é tempo de dar sepultura ao nosso venturoso amigo... É ventura morrer quando se vem a este mundo com tal estrela. Passe a senhora Mariana ali para a câmara que vai ser levado daqui o defunto.
Mariana tirou o maço das cartas debaixo do travesseiro, e foi a uma caixa buscar os papéis de Simão. Atou o rolo no avental, que ele tinha daquelas lágrimas dela, choradas no dia da sua demência, e cingiu o embrulho à cintura.
Foi o cadáver envolto num lençol, e transportado ao convés.
Mariana seguiu-o.
D0 porão da nau foi trazida uma pedra, que um marujo lhe atou às pernas com um pedaço de cabo. O comandante contemplava a cena triste com os olhos úmidos, e os soldados que guarneciam a nau, tão funeral respeito os impressionara, que insensivelmente se descobriram.
Mariana estava, no entanto, encostada ao flanco da nau, e parecia estupidamente encarar aqueles empuxões que o marujo dava ao cadáver, para segurar a pedra na cintura.
Dois homens ergueram o morto ao alto sobre a amurada. Deram-lhe o balanço para o arremessarem longe. E, antes que o baque do cadáver se fizesse ouvir na água, todos viram, e ninguém já pôde segurar Mariana, que se atirara ao mar.
A voz do comandante desamarraram rapidamente o bote, e saltaram homens para salvar Mariana.
Salvá-la!...
Viram-na, um momento, bracejar, não para resistir à morte mas para abraçar-se ao cadáver de Simão, que uma onda lhe atirou aos braços. O comandante olhou para o sítio donde Mariana se atirara, e viu, enleado no cordame, o avental, e à flor da água, um rolo de papéis, que os marujos recolheram na lancha. Eram, como sabem, a correspondência de Teresa e Simão.
Da família de Simão Botelho vive ainda, em Vila-Real-de-Trás-os-Montes, a senhora D. Rita Emília da Veiga Castelo Branco, a irmã predileta dele. A última pessoa falecida, há vinte e seis anos, foi Manoel Botelho, pai do autor deste livro.
FIM
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Perdição. 1862. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16586 . Acesso em: 17 jun. 2026.