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#Crônicas#Literatura Brasileira

Vida Urbana

Por Lima Barreto (1921)

Embora não seja eu ateu de todo e não tenha os conhecimentos do senhor Cunha Pedrosa, que quer um dia feriado, para os brasileiros dar graças a Deus, como se não houvesse dia, hora e minuto em que eles tal não façam, quando lhes acontece alguma boa ou escaparam de alguma má; embora não seja como o eminente senador conterrâneo do senhor presidente, tenho para mim que não é coisa muito cristã chamarse a guerra de coisa de Deus.

A última guerra parece me dar razões para isso, mas se não fossem somente os fatos propriamente guerreiros como a morte ou inutilização de milhões de homens, etc., etc., bastavam as consequências dela que agora se estão verificando.

Não há dia em que não se abra jornais que não se fique horrorizado com as verificações de lamentáveis desgraças que ela acarretou e está acarretando.

Os telegramas enchem-nos de pasmo e de assombro. Não se os pode ler sem sentir o maior constrangimento e horror.

Parece que a humanidade vai falir; e eles vêm de todas as partes.

Vejam só trechos destes de que todos os nossos diários deram à estampa – descrevendo o estado de penúria em uma das mais importantes cidades:

“Os trens e outros veículos circulam pela cidade, sem iluminação e sem limpeza de espécie alguma. A iluminação da cidade apaga-se às onze horas da noite. Numerosos viajantes dormem nos hospitais. Todas as casas particulares são obrigadas a alugar os seus compartimentos disponíveis. Afirma que esta situação é, com pequenas variantes, idêntica em toda a Alemanha. Por quase toda a cidade falta pão, composto atualmente, como durante o período da guerra, de toda e qualquer farinha, exceto da de trigo.”

Parece que não é preciso mais pôr na carta, para se poder avaliar o grau de miséria a que cinco anos de guerra levaram um país próspero e rico.

Os males oriundos da guerra não ficaram só no campo material. Foram além e parecem interessar os próprios destinos morais da espécie.

No mesmo dia em que os jornais contavam o que se passava na Alemanha, referiam-se também às duras heranças que a guerra legou à Inglaterra.

Uma delas era o aumento pasmoso de divórcios, provindos quase todos por abandono do lar de parte de um dos cônjuges. Transcrevo dois períodos bem eloquentes:

“Nada menos de dois mil casos de separação conjugal estão pendendo de sentença do tribunal e segundo todas as previsões esse número duplicará dentro de um prazo relativamente pequeno, conforme se verifica da lista processual.” E o outro diz:

“Mas o que há de realmente interessante nesta crise de divórcios, é que a maioria deles têm sido provocados pela falta de recursos e abandono do lar.”

Depois disto tudo, podem ainda os corifeus de Von Bernhardt e outros fazer a apologia da guerra?

Careta, Rio, 22-11-1919.

LIMITES ENTRE ESTADOS E MUNICÍPIOS

Todos os dias os jornais trazem notícias de questões de limites entre Estados e agora já chega a vez dos municípios.

De norte a sul do país as há ou as houve. O Ceará, certa vez, quase engalfinhouse com o Rio Grande do Norte; e o Paraná andou às turras com Santa Catarina por causa de terras vizinhas e, em virtude disso houve mortes de sobra.

Parecia que isso tinha acabado, mas vejo que não. Há dias li a notícia que uma vasta comissão de sumidades se havia reunido, para assentar as bases de resolver as que existem entre São Paulo e Minas Gerais. É possível ainda? Pois nós estamos num país, onde há “terras de ninguém”, como é que as suas partes políticas ainda se disputam fragmentos de terrenos que não pertencem a cada uma delas, mas à totalidade da nação?

Mas não são só os Estados; os municípios também. O Distrito Federal tem uma questão de limites com o Estado do Rio de Janeiro; mas aí a coisa é mista.

Há contudo, melhor. No excelente O Estado, que se publica em Níterói, há um longo artigo, apaixonado, reclamando sobre questões de limites entre os municípios de Santa Maria Madalena e São Francisco de Paula.

Parecia que santos não deviam brigar, mas não é este o tom da carta, pois não é artigo como disse antes.

Faço um florilégio dela, para os leitores avaliarem o azedume da missiva.

Depois de citar leis, alvarás, decretos, etc., diz:

“Conformaram-se e viviam satisfeitos e tranquilos com o que pelo referido decreto passou a pertencer-lhes. Não se dava outro tanto com os franciscanos. Pertencendo a maior parte dos terrenos do município de São Francisco a uma só família, que não via com bons olhos Madalena, não perdia ocasião essa família de investir contra ela.”

Leram. Já não é uma luta de municípios; é uma luta de partidos!

Não param aí os assaltos do município pelos vizinhos que lhe usurpam os direitos; mas que, confiante nos seus direitos, trate de reivindicá-los.

Campos, o poderoso Campos, também quer avançar nas suas terras. Temos aqui este pedacinho menos veemente:

(continua...)

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